29 de out de 2007

As marcas de Cristo

Quais são as marcas de um verdadeiro cristão? Nos dias atuais, em que muitos propalam serem evangélicos, é preciso que tenhamos um critério bíblico que avalie aqueles que, de fato, têm algum comprometimento com o evangelho de Cristo. Paulo, em sua epístola aos Gálatas, fala de marcas que o identificavam como cristão. Diz assim o apóstolo: “desde agora ninguém me inquiete; porque trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus”. A que marcas o apóstolo dos gentios se referia? Como podemos desenvolvê-las na constituição de uma identidade genuinamente cristã? A fim de responder a essas perguntas, façamos, a princípio, uma abordagem contextual dessa passagem.
Nessa época, o apóstolo estava sendo perseguido por um grupo de opositores, denominados de judaizantes, os quais, questionavam sua autoridade apostólica. Esses inimigos da cruz de Cristo seguiam o trajeto de Paulo, “despregando” sua mensagem evangélica. O alvo deles era inserir práticas judaicas no protocristianismo, dentre essas, a circuncisão, enquanto rito obrigatório para aqueles que quisessem seguir a Cristo. Ao longo dessa Epístola, Paulo mostra a fraqueza dessa prática, em face da suficiência do sacrifício de Cristo na cruz. Ele mostra, com argumentos contundentes, que, ao se voltarem para os rudimentos antigos, os crentes da Galácia estariam retrocedendo na fé, ou pior, decaindo da graça.
Ao se opor à prática da circuncisão, negado-lhe a validade (Gl. 5.6), Paulo aponta para uma outra marca. Essa, inicialmente, era de cunho físico, tratava-se de seus ferimentos resultantes das perseguições por amor a Cristo. A palavra que Paulo usa, para se referir a essa marca, é stigma, que somente ocorre, no Novo Testamento, em Gl. 6.17. Os sofrimentos físicos pelos quais Paulo passou estão registrados em II Co. 11.23-25, referindo-se a eles, o apóstolo dizia está completando, em seu corpo, as dores de Cristo (Cl. 1.24). Ele sabia que todos aqueles que servem piedosamente ao Senhor padecerão perseguições (II Tm. 3.12). Os verdadeiros seguidores de Jesus carregam a cruz do discipulado (Mt. 16.24).
O stigma de Paulo, por servir a Cristo, remete, também, ao antigo costume judaico de marcar os escravos antigos (Ex. 21.6). Somos identificados, como pertencentes ao Senhor, pelas marcas do fruto. Os aspectos dessa virtude espiritual se encontram em Gl. 5.22: amor – é o fundamento do fruto, manifesta-se na disposição em doar a si mesmo (I Co. 13; Gl. 5.13; Rm. 5.2-5; Ef. 5.23-32; 5.1,2), a exemplo de Cristo (Jo. 3.16; I Jo. 3.16); alegria – alegria que independe das circunstâncias (At. 2.46; Rm. 14.7; 15.13; Fp. 4.4); paz – que não se atribula perante as adversidades (Is. 26.3; Jo. 14.26,27; Cl. 3.15); longanimidade – tolerância para suportar os momentos difíceis (Sl. 119.71; Rm. 5.3,4; Hb. 12.7-11; Tg. 1.3,4; 5.10,11; I Pe. 2.20); benignidade – disposição graciosa para fazer o bem (Ef. 4.31,32; 5.1,2); bondade – é a prática da benignidade (Rm. 15.14; Gl. 5.22; Ef. 5.9; II Ts. 1.11), mais precisamente, da generosidade (II Co. 8.1-15; Gl. 6.9,10; I Pe. 4.8-10); fidelidade – a fé que prevalece, apesar das tribulações (Rm. 5.1,2; Hb. 6.12; I Jo. 2.6); mansidão – submissão e humildade em relação a Deus e ao próximo (Mt. 11.29; Tg. 1.21; Gl. 6.1; I Pe. 3.15,16); e domínio próprio – controle diante das tentações (Tt. 2.11,12; II Pe. 1.5,6; I Co. 7.9; 9.25).
A produção dessas marcas na vida do cristão não se dá de maneira instantânea, como acontece com os dons espirituais (I Co. 12). É resultado do enxerto contínuo nAquele que é a Videira Verdadeira. Em Jo. 15.1-17, Jesus se utiliza dessa metáfora campestre para nos deixar uma lição primorosa sobre a produção do fruto espiritual. Existem ramos que por não produzirem frutos, serão cortados da videira (Jo. 15.2). Alguns ramos perdem sua ligação, por isso, serão lançados no fogo e queimados (Jo. 15.4). Os que produzem frutos são podados e limpos para que dêem mais frutos ainda (Jo. 15.2). Jamais devemos esquecer que é por meio do fruto que seremos conhecidos, ou para usar uma expressão mais específica, marcados (Mt. 7.16-20). Essa marcação não se trata de algo meramente exterior, ela resulta de uma processo contínuo de transformação que parte do íntimo do cristão, na medida em que esse passa a ser nova criatura (II Co. 5.17).
Existe uma pequena história que ilustra bem esse processo. Conta-se que um homem tinha um cão valente que costumava perseguir os vizinhos, e em alguns casos, mordê-los. Preocupado com a situação, o dono do animal teve uma idéia, e pediu à sua esposa que fizesse uma mordaça para que a fera não mais perturbasse as pessoas. A idéia funcionou, o cão deixou de morder os transeuntes, mas, infelizmente, não deixou de correr atrás. Isso revela o que acontece na vida de muitos cristãos que não conseguem produzir as marcas espirituais de Cristo. Não permitiram que o Espírito produzisse, neles, o Seu fruto. Por isso, andam na contramão do mestre, seguindo as obras da carne. Esses ainda não aprenderem a desfrutar dos benefícios exarados por Jesus em Mt. 11.28, por isso, restam-lhes apenas fardos e jugos pesados para carregar.