26 de ago de 2007

Vinte anos de fé

Passado o mês de agosto, tenho a oportunidade de celebrar, por esses dias, vinte anos de caminhada na fé cristã. Poderia muito bem deixar passar desapercebida essa data, mas, sinceramente, em se tratando de um número tão significativo, e de um trajeto já considerável, não posso perder essa oportunidade para tecer e partilhar, com o dileto leitor, algumas impressões a respeito do movimento evangélico brasileiro, pelo menos do que tenho testemunhado ao longo desses poucos anos. Para começar, destaco que, nos idos de 1987, éramos denominados de “crentes”, e não de evangélicos, como hoje. E agregado à essa nomenclatura, havia um certo desdém por aqueles seguidores do livro de capa preta.
Diferentemente daqueles dias, somos, nos dias atuais, chamados de evangélicos, recebemos uma nova identidade, obtivemos o reconhecimento público, principalmente dos políticos, e, ao que tudo indica, não muito depois desses anos, seremos uma das maiores nações de confissão evangélica do mundo. Para alguns eufóricos, ganhamos muito com tudo isso, mas receio que estejamos recaindo no entusiasmo frustrante de alguns cristãos do terceiro século, quando o imperador Constantino liberou os seguidores de Cristo das arenas romanas. Acabaram as perseguições, mas, por outro lado, o comprometimento com a revelação bíblica arrefeceu os alicerces que haviam sido defendidos, com tanto afinco, pelos apóstolos, os quais foram substituídos por crenças pagãs.
Quando analiso o contexto atual dos evangélicos brasileiros, à luz das doutrinas bíblicas e da história da igreja, sou instado, com inquietude espiritual, a retornar ao norte, aos fundamentos da fé, e, a partir deles, reafirmar o que creio, como condição à continuidade da jornada. Primeiro, não me nego a ser rotulado de evangélico, contanto que se explicite o que se quer dizer com esta palavra. Ser evangélico, para mim, é mais do que pertencer a uma igreja que se diga evangélica, é ter compromisso com os postulados de Cristo, testemunhados, com alegria, pelos apóstolos e profetas bíblicos. Por se tratar de uma mensagem divina, que salva por meio da fé, instiga os religiosos ao escândalo, por não entenderem o sentido da graça que se manifestou na cruz do calvário.
Nego-me a ser conduzido por revelações religiosas subjetivistas, pautadas na mera experiência humana, que não façam coro ao texto bíblico. Não que esteja negando os fundamentos da doutrina pentecostal, muito pelo contrário, quando leio os escritos de homens como Gunnar Vingren, Orlando Boyer, entre outros, percebo que a doutrina pentecostal, em sua formação, sempre esteve atrelada à sólida doutrina bíblica. Talvez seja o caso de retornarmos ao estudo da Bíblia, bem como à oração constante, por meio dos quais poderemos chegar ao pleno avivamento. Ao longo desses anos, observo que o acúmulo de tecnologia, mesmo com a difusão das Bíblia computadorizadas, não tem garantido um acréscimo de conhecimento bíblico.
Os pregadores, com raras exceções, pautam-se em textos bíblicos isolados, cujo fim é apenas reforçar idéias preconcebidas. Lembro-me, com carinho, dos antigos pregoeiros pentecostais, os quais, mesmo sem a disponibilidade do aparato bibliográfico e tecnológico que temos hoje, já se esforçavam para expor o texto bíblico, expositivamente. Testemunho, com tristeza, que muitos púlpitos não mais servem à ministração bíblica. Transformaram-se em palcos, nos quais atores tentam atrair, a qualquer custo, a atenção da audiência. Os expectadores, por sua vez, não fazem qualquer exigência quanto ao ensinamento proferido, o que lhes interessa é voltar para sua casas alegres, ou como se costuma dizer, “com a auto-estima elevada”.
Como o caro leitor deva ter percebido, muita coisa mudou ao longo desses últimos vinte anos. Mas apesar de todos esses percalços, continuo reafirmando minha fé na graça de Cristo Jesus. A descaracterização do movimento evangélico brasileiro não conseguiu me tirar o fulgor do genuíno evangelho, o qual, nas palavras de Paulo, é poder de Deus e salvação para todo aquele que crê. Além do mais, quando penso na nuvem de testemunhas que viveram e morreram por essa mesma fé, esqueço de muitas das coisas que para trás ficam, e, deixando para trás todo embaraço, sigo adiante, na expectação de que Deus, como Senhor da história, a seu tempo, porá todas as coisas na devida ordem. Enquanto aguardo, mantenho os olhos fitos em Jesus. Ele continua me dando motivos para celebrar.