16 de jul de 2007

Cristo e a Igreja Verdadeira

Joseph Ratzinger, o Bento XVI, causou incômodo às igrejas evangélicas, ao declarar, recentemente, que a Igreja Católica Romana é a única igreja verdadeira. Seu posicionamento não nos surpreende, haja vista ser esta apenas uma reedição do que ele já havia escrito no Dominus Iesus, enquanto ainda Cardeal da Doutrina da Fé, no Vaticano. A justificativa de Ratzinger é a de que as comunidades que não fazem parte da sucessão apostólica, que remete a Pedro, não poderiam ser propriamente denominadas de Igreja. Ratinzger parece ter plena convicção de que Pedro teria sido realmente o primeiro papa. Uma análise acurada, à luz da Bíblia e da história, porém, não evidencia tal certeza. Ademais, se Pedro chegou mesmo a ser papa, o que duvido, teria sido diferente do que conhecemos como papado hoje.
O Pedro bíblico era uma pessoa que não dispunha de tantos recursos financeiros como acontece hoje. Certa feita, conforme lemos em Atos 3.6, quando um homem lhe pediu uma esmola, o apóstolo do Senhor respondeu: “não tenho prata nem ouro; mas o que tenho isso te dou. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda". Ademais, o Pedro da Igreja Primitiva era um homem que reconhecia não passar de um servo, por isso, não aceitou qualquer veneração humana. Como registra o livro de Atos, no capítulo 10, versículos 25 e 26, por ocasião de sua visita a Cornélio, deixou claro que não aceitaria que os homens se dobrassem perante ele, quando disse: “também sou homem”.
No evangelho de Mateus, no capítulo 8, versículos 14 e 15 lemos que a sogra de Pedro fora curada por Jesus. Concluímos, assim, que Pedro era casado, e conseqüentemente, não era adepto do celibato como os papas de hoje. Em acréscimo, Pedro parece não ter sido infalível, nem mesmo nas questões doutrinárias, é o que depreendemos da Epístola de Paulo aos Gálatas. No capítulo 2 e nos versículos de 11 a 14, Paulo diz que o resistiu “na cara, porque era repreensível”. Isso porque Pedro se encontrava em companhia dos gentios, mas quando chegaram alguns judeus, ele se afastou dos não-judeus, por isso, foi corrigido pelo apóstolo dos gentios.
Do ponto de vista bíblico, parece que o apóstolo Tiago teve um papel mais preponderante do que Pedro na igreja primitiva. No capítulo 15 de Atos, no primeiro concílio da Igreja de Jerusalém (que não era romana), foi Tiago quem conduziu as discussões em torno dos gentios. E finalmente, é da sua boca que saem os encaminhamentos para os cristãos não-judeus, não de Pedro, como se deveria esperar. Na epístola do Apóstolo Paulo, aos crentes da Galácia, no capítulo 2 e no versículo 9, a ordem das “colunas’ da igreja são “Tiago, Cefas [Pedro] e João”. Se Pedro era o mais importante, por que ele não foi citado primeiramente, somente depois de Tiago?
Em virtude da improbabilidade histórica de que Pedro tenha sido o primeiro papa, a Igreja Romana limita-se à declaração de Jesus, em Mateus, capítulo 16, versículos 18 a 19, para defender o papado de Pedro. Após este apóstolo ter afirmado que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus Vivo, Jesus disse: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”. A questão crucial, aqui, é: a igreja foi edificada sobre Pedro ou sobre Cristo? Quem é, então, a pedra? Deixemos que o próprio Pedro responda.
Em seu sermão, em Jerusalém, no capítulo 2 de Atos, no versículo 11, Pedro justifica a superioridade de Cristo, afirmando que “Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina”. Ainda na sua Primeira Epístola, no capítulo 2 e no versículo 4, diz: “E, chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa”. Se o testemunho de Pedro, o suposto primeiro papa não for suficiente, apelemos para o que diz Paulo, em sua primeira carta aos Coríntios, no capítulo 10, versículo 4. Naquela passagem, Paulo fala que os judeus, no passado, beberam água de uma pedra espiritual, e que essa “era Cristo”. Já no Antigo Testamento, no livro de Daniel, capítulo 2 e versículo 34, Jesus foi profetizado como a pedra que foi cortada sem auxílio de mãos.Se recorrermos, lingüisticamente, a Mt. 16, o texto supracitado, veremos também que em grego, a língua em que o Novo Testamento foi escrito, o substantivo feminino petra designa uma rocha grande e firme. Enquanto que o substantivo masculino petros é aplicado para se referir a pequenos blocos rochosos, pedras pequenas ou pedregulhos. Pedro, portanto, não passaria de um pedregulho, isto é, uma parte da pedra maior, rochosa e firme, que, inquestionavelmente, é Cristo. Todos nós, cristãos de todas as épocas, somos pedras pequenas, que, ao reconhecer o senhorio de Cristo, nos tornamos partes dessa Rocha sólida e firme. Uma igreja, portanto, para ser considerada verdadeira, não depende de uma sucessão apostólica, mas de seguir os passos de Cristo, a Rocha inabalável.