30 de jun de 2007

Um Abraão que poucos conhecem

Abraão é considerando, por várias religiões do mundo, o pai da fé. Por essa razão, parece ser compreensível que, de vez em quando, ouçamos alguma mensagem religiosa que trate de sua relevância espiritual. Mas poucas vezes Abraão esteve em tanta evidência quanto atualmente no contexto evangélico brasileiro. Ele é o personagem favorito de muitos pregadores, principalmente, aqueles dos meios de comunicação de massa. Eles ressaltam, com todas as conjecturas possíveis, a fé do patriarca, o qual, saiu do meio de sua parentela e foi para uma terra longínqua, conforme prometido pelo Senhor, bem como sua disposição ao oferecer seu filho em sacrifício obediente à prova de Deus. Nada, porém, parece atrair mais esses mensageiros, do que a fé “inabalável” de Abraão, principalmente, quando se trata da obtenção de recursos materiais.
Nos programas televisivos, “sermões” com essa proposta são bastante recorrentes. Inconformado com tanta repetitividade, resolvi voltar-me às páginas da Bíblia para ver o que ela, de fato, tem a dizer a respeito de Abraão. Surpreendentemente, encontrei, no livro sacro, um Abraão que poucos conhecem. Se o amado leitor me permite, gostaria de partilhar algumas das percepções que tive a respeito desse que é o principal patriarca do livro do Gênesis. A princípio, observei que, ao contrário do que se costuma postular, o Abraão bíblico nada tem com o espírito ganancioso tão amplamente propalado pelos arautos da prosperidade material. Quando ele saiu do meio de sua parentela, teve de abrir mão de todas os benefícios da terra de Ur para se tornar nômade até que a promessa de Deus se cumprisse em sua vida.
A riqueza, para o patriarca, não era, definitivamente, o principal alvo de sua vida. Em certa ocasião, ele demonstrou desinteresse na obtenção de recurso ilícito, que, de algum modo, viesse a macular seu testemunho perante Deus (Gn. 14.22-24). Não podemos negar o enriquecimento de Abraão, contudo, seria reducionismo pensar que ele punha, nelas, sua confiança. Na verdade, seguindo à diretriz do Senhor, sabia que nada poderia ter primazia no seu coração, a não ser o Senhor, seu precioso galardão (Gn. 15.1). Nem mesmo seu filho, gerado em sua velhice, poderia ocupar o lugar de Deus. Abraão, em atenção à voz do Senhor, precisou se desvencilhar dos riscos de idolatrar seu próprio filho, e seguiu ao monte para sacrifica-lo. Esse mesmo Deus, porém, não permitiu que o sacrifício fosse levado adiante.
Abraão fora aprovado nesse teste, contudo, não devemos nos iludir e pensar que o patriarca não teve seus momentos de fraquezas. Certa feita, diante da ameaça de seca e fome, Abraão “desceu para o Egito” (Gn. 12.10). Por alguns momentos, deixou de acreditar que Deus lhe pudesse prover os suprimentos necessários para viver na terra prometida. Quando se deixou levar pelas circunstâncias, teve de se ocultar por detrás de sua esposa (Gn. 12.12), recomendado, inclusive, que ela mentisse se achasse necessário, a fim de protegê-lo (v. 13). O medo de Abraão (e o de todos nós) é o de que venhamos a perder o controle das situações futuras (Gn. 12.13). É irônico perceber que o velho patriarca acabou sendo corrigido pelo rei pagão a quem tanto temia (Gn. 20.17).
É fascinante o realismo com que a Bíblia retrata seus personagens. Ao mesmo tempo em que apresenta Abraão como um dos heróis na galeria da fé (Hb. 11.8), não oculta suas fraquezas e limitações. No entanto, a vida daquele homem de Deus continua sendo um exemplo marcante para todos nós cristãos. Mas precisamos aprender tanto com suas virtudes quanto com suas fraquezas. A maior lição que podemos extrair da vida de Abraão é que o patriarca é chamado, por Deus, de amigo. A recomendação de Deus, para Abraão, também tem sua serventia para nós. O Senhor disse: “Abraão, anda na minha presença e sê perfeito” (Gn. 17.1). Essa não é uma tarefa fácil, a menos que dependamos do Espírito Santo. E, a todo tempo, mantivermos nosso olhos fitos em Cristo, o exemplo maior de perfeição. Se Abraão é reconhecido como o pai da fé, Jesus é, sem sombra de dúvida, o Autor e Consumador da nossa fé (Hb. 12.2).