22 de abr de 2007

Na casa de Aba

É interessante observar que na cultura judaica antiga, em seu temor extremado ao Senhor, o povo não se atrevia a chamá-lo de Pai. Ele era aquele cujo nome não poderia jamais ser mencionado, no máximo o Adonai, isto é, o meu Senhor, diante do qual deveria se prostrar reverentemente. Os religiosos dos tempos de Jesus, escondidos sob a fachada do legalismo, não desfrutavam de intimidade com Deus, e se opunham aos que o quisessem fazê-lo. Jesus denunciou essa atitude em uma parábola, na qual retrata a história de um filho, cujo interesse por desfrutar dos prazeres da vida o levou a se distanciar do pai, pedindo e gastando, antecipadamente, sua herança. Depois de ter passado fome e necessidade, voltou para os braços do Pai, o qual o recebera com júbilo.
Mas essa narrativa tem outro lado. Esse pai tinha dois filhos. O que ficara se queixou de seu pai por ter recebido seu irmão com tanto gozo, após tudo que havia feito. Ele argumentou que seu irmão não merecia tamanha honra. Ele sim, por ter sido um bom filho ao longo de todo o tempo e jamais ter se distanciado – ainda que fisicamente – do seu progenitor. O pai o respondeu que tudo sempre esteve à disposição dele, e, se não o tinha desfrutado, foi porque não ousou fazê-lo. Com essa parábola, Jesus objetivava mostrar, aos fariseus, o quanto eles estavam perdendo por não buscar uma vida de intimidade real com o Pai. Ao contrário, eles censuravam todos aqueles que se aproximavam de Jesus, principalmente os que consideravam pecadores.
Em se tratando de intimidade com Deus, Jesus abriu um novo horizonte. Quando seus discípulos pediram-no que lhes ensinasse a orar, iniciou com a palavra “Pai” (Mt. 6.9). No aramaico, língua falada pelos judeus da época de Jesus, o termo era “Aba”, que significa, literalmente, papaizinho (Mc. 14.36). É a expressão de uma criança que se dirige, com amor e respeito ao seu pai. Desde então, temos pleno acesso para nos dirigir a Deus, em oração, chamando-o de Pai (Aba). Trata-se de algo tão marcante que João escreveu: “a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” (Jo. 1.13) e em uma de suas epístolas: “Vede quão grande amor nos tem concedido o Pai, que fôssemos chamados filhos de Deus” (I Jo. 3.1).
Como isso veio a acontecer nos é explicado por Paulo, em Gl. 4.4-7: “Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. Assim que já não és mais servo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo”. Portanto, por causa do caminho que Cristo nos preparou, podemos, com Ele, nos aproximar de Deus, desfrutar de intimidade com Ele. E, como Jesus nos ensinou na oração, chamá-lo de Pai, ou como dizem as crianças, “paizinho”. É uma pena que os cristãos, talvez por terem se acostumado com a idéia, deixaram de perceber o profundo significado de ser filho de Deus.
Inicialmente, ser filho do Pai é um grande privilégio. Quantos se vangloriam por serem filhos de um político influente ou de um ator famoso da televisão, nós, mais ainda, pois somos, não apenas filhos de Deus, mas co-herdeiros com Cristo. É maravilhoso saber que não estamos sós no mundo, que temos um Pai que está sempre do nosso lado. Que podemos depender dEle nos momentos mais difíceis da vida. Somos alvo da graça e do amor do Pai. Como os filhos pródigos da parábola, podemos voltar ou estar sempre em casa, desfrutando dos Seus cuidados e proteção. Em uma época que as pessoas se angustiam por não serem amadas, podemos descansar na certeza de que somos amados do Pai.Ser filho do Pai, além de ser um privilégio, é também uma responsabilidade.
Como todo filho tem traços característicos do seu pai, nós, filhos do Pai, não podemos ser diferentes. Mas não é algo que vem pela força, e muito menos pela violência. É no convívio diário com o Pai, através do Seu Espírito, ouvindo a Sua Palavra, que o filho, paulatinamente, vai se tornando mais parecido com o Pai. Para ser filho do Pai, há apenas uma exigência, é preciso que, como o filho da parábola, reconheçamos o quanto somos necessitados dos Seus cuidados graciosos e amorosos, recebamos o Seu perdão e nos entreguemos sem reservas a fim de que Ele, como um bom pai, passe a orientar nossas vidas. Quando isso acontece não há fardos, e muito menos jugos pesados a serem carregados. Essa é a alegria de estar na casa de Aba, onde há amor e graça.