24 de set de 2007

Mamom, o deus deste século

A palavra Mamom se encontra, na Bíblia, em Mt.6.24, num contexto no qual Jesus critica aqueles que fiam sua segurança nas posses materiais. No seu conhecido Sermão do Monte, o Mestre adverte: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom”. A título de esclarecimento, esse deus, de acordo com os estudiosos, era adorado entre os antigos caldeus e estava associado ao poder das riquezas. Jesus, sabendo da força que esse deus exercia no seu tempo, e viria a ter em todos outros, ressaltou, com bastante realismo, os perigos de se deixar conduzir pelos ditames dessa divindade.
Na medida em que o tempo passa, percebemos, assustadoramente, que o poder de Mamom tem acrescido. Ele recebe todas as honrarias possíveis e é adorado como se fosse uma prática natural. Há dias em que se diz que esse deus está mais ou menos agitado. Seus sacerdotes fazem todo o esforço possível para apaziguá-lo, na maioria das vezes, oferecendo sacrifícios humanos. Seus exegetas tentam, sem muito êxito, interpretar suas vontades e caprichos. Essa, contudo, não é uma tarefa fácil, pois sua linguagem é numérica, fria e calculista. Em sua expressividade não há espaço para a oração e a poesia.
Seguindo o percurso da religiosidade pagã, Mamom também desconhece qualquer manifestação de graça. O favor imerecido tão freqüentemente citado no evangelho de Cristo. Seu projeto principal é por os indivíduos no ciclo da dependência. Através de sua propaganda consumista, tenta fazer prosélitos, levando muitos a acreditar que não existe vida fora de realidade que criou. O reino de Cristo se opõe, frontalmente, a esse círculo vicioso. Ao invés da escravidão do ter, em detrimento do ser, Jesus nos ensina a desfrutar dos cuidados amorosos do Pai, que cuida de nós em todas as circunstâncias (Mt. 6.25-34).
Paulo, como bom aluno de Cristo, aprendeu a seguir os seus passos, de modo que, em suas epístolas, orienta seus leitores a devotarem sua fé, exclusivamente, a Deus, e, a partir desta, serem capazes de conviver tanto com os momentos de fartura quanto de necessidade (Fp. 4.6,7,10-13). Esse apóstolo estava tão ciente da ameaça de Mamom, à fé cristã, que orienta o jovem Timóteo a investir na “piedade com contentamento” (I Tm. 6.6). É uma pena que essa moeda esteja em queda no mercado secular, em detrimento do desejo desenfreado de ter sempre mais. A esse respeito, Paulo acrescenta que “o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores” (v. 10).
É uma pena observar que, nos dias atuais, essa doutrina, intitulada de teologia da prosperidade, que prefiro chamar de teologia da ganância, esteja em plena discordância com Cristo e com Paulo. Essa verdade é contundente no Novo Testamento, vejamos, por exemplo, o que diz o autor da epístola aos hebreus: “Sejam vossos costumes sem avareza, contentando-vos com o que tendes; porque ele disse: Não te deixarei, nem te desampararei” (Hb. 13.5). A Bíblia inteira faz coro a essa sábia revelação, basta abrir e conferir as passagens a seguir: Ec. 5.10-11; Lc. 12.15; II Co. 4.18; Lc. 12.21; Pv. 23.4-5; Jó. 31.24-28. À guisa de conclusão, façamos, no entanto, uma ressalva a fim de não confundirmos contentamento com falta de diligência ou ociosidade. A mesma palavra que se opõe à adoração a Mamom também nos mostra a relevância do trabalho (Gn. 3.19; Jo. 5.17; Ef. 4.28; I Ts. 2.9; II Ts. 3.8). Mais que isso, o evangelho de Cristo ensina que devemos fazer tudo com dedicação e fé (Rm. 14.23), não como para homens, mas para Deus (Ef. 6.7). A reprovação bíblica é quanto ao espírito ganancioso que põe o ter como um fim em si mesmo. É válido lembrar que, por razões justificáveis, nas cédulas brasileiras e americanas, está escrito, respectivamente: “Deus seja louvado” e “Em Deus nós confiamos”. Tais declarações não estão ali por acaso e remetem à enfática e exclusivista mensagem profética de Jesus: “Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a Ele servirás” (Mt. 4.10).