24 de mar de 2007

Extra! Extra! boas notícias!

Certo dia, após chegar em casa, depois de um dia longo de trabalho, liguei o rádio. O locutor narrava a morte de mais uma mulher, assassinada, inescrupulosamente, pelo próprio marido. Decidi, então, assistir ao noticiário televisivo. O apresentador do jornal noticiava mais um atentado terrorista no oriente médio e uma série de mortes decorrentes de uma guerra insana justificada por interesses petroleiros. Não suportei. Peguei uma revista que, na capa, trazia a foto de uma criança que havia sido arrastada por um veículo roubado e conduzido por um grupo de jovens delinqüentes. Essa é a sociedade da informação: notícias, muitas notícias, mas, infelizmente, más notícias.
Será que não existem boas notícias que sejam dignas de ser propagadas? Para ser mais específico, será que alguém assistiria ou compraria um jornal que só trouxesse notícias agradáveis. Tenho minhas dúvidas. Até parece que o ser humano sente satisfação em ver o sangue do seu próximo derramado. Talvez, por isso, os jornais tragam tantas notícias sensacionalistas, neste caso, os fins justificam os meios, ou melhor, a mídia. Se o motivo for despertar a sociedade, e revoltá-la diante das atrocidades, talvez seja compreensível, contudo, acreditamos que um outro mundo é possível. Por essa razão, desliguei também a TV, e guardei a revista. Estendi as mãos e peguei um exemplar do Novo Testamento que havia deixado no dia anterior sobre a escrivaninha.
Ao ler uma das Epístolas de Paulo, dei-me conta de que ali, nas páginas daquele texto tão antigo, havia notícias extremamente atuais. Por um momento me perguntei: por que será que essa mensagem não está nas primeiras páginas dos jornais? Será que essa não seria uma notícia que merecesse uma manchete de destaque no noticiário? O texto falava da realidade do pecado, dizia que todos os seres humanos se encontravam distanciados de Deus. Que, por conseguinte, sem Deus, estamos longe da razão para a qual fomos criados, do sentido real da existência humana. Mas essa não é uma notícia agradável, o melhor vem depois, entendi que o amor de Deus é incondicional e que se concretizou no ato de se fazer ser humano e vir à terra morrer pelos seres humanos.
Que mensagem graciosa: Deus nos ama e não há o que possamos fazer para sermos mais ou menos amado por Ele. Ele não faz exigências, apenas requer que creiamos no sacrifício vicário de Jesus Cristo. É pela graça, por meio da fé, não vem pelas obras para que ninguém se glorie. Que maravilhoso! A graça de Deus se manifestou trazendo salvação aos seres humanos. Em 1969, quando a nave Apolo pousou o solo lunar, os jornalistas de várias partes do mundo noticiaram que o maior evento de todos os tempos havia acabado de acontecer. O homem havia posto os seus pés na lua. Mas Billy Graham, célebre pregador, tratou logo de corrigir a notícia. Quando foi entrevistado, disse que aquele o maior evento histórico de todos os tempos não havia sido o homem ter posto seus pés na lua, mas Deus ter vindo à terra. Acho que a isso os autores bíblicos denominam de “evangelho”, literalmente, boa notícia.
Tenho consciência dos muitos problemas sociais que enfrentamos e do descaso das políticas públicas em relação à violência. A raiz dessa celeuma vai além do que aparenta. A imprensa é apenas a ponta do iceberg submerso. Mas como ela não é ideologicamente neutra, e muito menos imparcial, estará sempre divulgando notícias que vendam, que seja do interesse dos seus leitores. Como cristão, sem querer causar efeito de objetividade e imparcialidade, proponho uma revolução amorosa nos noticiários. Ainda que apenas por alguns dias, se divulgue, ao invés dos crimes e mortes hediondos, se noticie o ato de amor de alguém que se desprendeu de parte de suas riquezas em favor dos pobres. Que se mostre, ao invés dos atentados terroristas no oriente, a amizade caridosa entre um judeu e um palestino.
Se isso não for o bastante, que se fale a respeito da ética do amor de Cristo, da tolerância pelas diferenças, da cultura do afeto. Que se diga o quanto Deus nos ama e que O provou enviando Seu único filho, Jesus Cristo, para morrer pelos nossos pecados, também para ser um exemplo, na vida e na morte, de perdão e sacrifício. E quem sabe, envolvidos por uma onda contagiante de boas notícias, a violência dê lugar ao amor, o preconceito ao respeito, a morte à vida. Entraremos num círculo virtuoso de notícias alvissareiras. Não se falará em outra coisa a não ser na última boa ação que alguém acabou de fazer. Por um momento, fecho os olhos, e em um minuto de desvario, parece que ouço um jovem a gritar pelas principais ruas da cidade: “Extra! Extra! Mais um caso de amor e desprendimento”. E, quem sabe, chegaria o dia em que isso seria tão normal que viveríamos em paz, e seríamos escandalizados com algum caso de violência, caso viesse a existir. Bem, você pode até dizer que eu sou um sonhador, mas pelo menos, não sou ou não fui o único.