2 de fev de 2007

A um jovem universitário

Não posso esquecer de sua alegria no dia em que ouviu seu nome ser anunciado na listagem dos aprovados no vestibular. Seus colegas vibraram, seus familiares se orgulharam de você. À noite, no culto, você pediu oportunidade para agradecer a benção alcançada. A igreja também jubilou com o seu bom êxito. Os dias seguintes foram de extrema expectativa até chegar o primeiro dia de aula na universidade.
O tempo foi passando, e, aos poucos, sua ausência começou a ser sentida nos bancos da igreja. Suas aulas noturnas começaram a servir de justificativa para você não mais ir aos cultos. Nos finais de semana você dizia não poder ir à igreja devido ao acúmulo dos trabalhos acadêmicos. Você não tinha coragem de reconhecer, mas, na verdade, a igreja perdera, para você, o brilho de outrora. Os hinos já não tocavam mais seu coração. As pregações passaram a ser enfadonhas.
Paulatinamente, você deixou de citar as Escrituras como regra de fé e prática. Devido a influência dos professores materialistas, Marx e Foucault se tornaram seus autores preferidos. A religião, nas suas discussões, tornou-se “o ópio do povo”. A doutrina cristã, na ordem do discurso, ficou restrita à “vontade de verdade”. A confusão dominou sua mente. A fé que você abraçou praticamente esfriou.
Temos sentido sua falta no seio da igreja. Por isso, atrevo-me a escrever-te essas mal traçadas linhas. Não que me considere um sabichão ou coisa que o valha. Ouso fazê-lo a partir da experiência que tive como universitário, e, ainda hoje, envolvido com a docência nesse contexto. Também passei pelas mesmas inquietações com as quais você convive atualmente.
Quando cheguei à universidade, não me contaram que a academia ainda recebe forte influência do pensamento moderno. Resultante de tal abordagem, o humanismo secular põe o homem como a medida de todas as coisas. O ser humano, e não Deus, precisa tomar as rédeas da história. Esse ponto de vista pode bem ser resumido na letra da música “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.
Não pense, meu caro, que estou querendo levá-lo ao outro extremo. Acredito que somos construtores da história, mas que ela precisa ser feita com Aquele que dela é Senhor. O conhecimento e a tecnologia, por si sós, são incapazes de levar o homem à felicidade. Consoante às contribuições filosóficas do próprio Foucault, ouso afirmar que muito do que se escuta na universidade é resultante de uma cosmovisão sócio-historicamente construída.
Por isso, seja mais crítico em relação a tudo que você ouve e lê. Saiba que existe um caminho, como diz Paulo, sobremodo excelente. O amor é a saída para uma humanidade decaída e distanciada de Deus. Não há razões para nos envergonharmos do evangelho. Ele é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que tem fé. Portanto, não dispense a reflexão de cunho bíblico. Não leia apenas os livros e textos que se opõem à doutrina cristã. Não podemos negar a importância da leitura dos textos dos grandes pensadores. Deixar de conhecê-los também seria incitar à ignorância.
Busque o equilíbrio de modo a fundamentar sua fé cristã. Recomendo começar por Agostinho de Hipona. “Confissões” é um clássico da filosofia patrística. Todo ele escrito em forma de oração. Kierkegaard, enquanto filósofo cristão, também escreveu textos interessantes a respeito da fé. A título de sugestão, seria interessante você ler, desse autor, "O desespero humano". Se você gosta de literatura - acho que todo universitário deveria gostar – delicie-se em Dostoivesky. Se você nunca leu um livro desse autor, comece por Crime e Castigo. Veja como o autor trabalha a questão da culpa e da redenção ao longo da obra.
Por fim, mas não por último, não deixe de ler C. S. Lewis, ex-professor de literatura renacentista em Oxford. As Crônicas de Nárnia é uma coleção juvenil, mas que atrai também aos adultos. Os livros de “Jack”, como era chamado pelos amigos, estão repletos de analogia à fé cristã. Além dos livros de literatura, ele também escreveu ensaios teológicos. Um dos melhores, recentemente republicado em português, é “Cristianismo Puro e Simples”.
Finalmente, não se aparte da leitura da Bíblia. Os livros que sugeri o ajudarão bastante no fortalecimento de sua fé. Mas a fé propriamente dita, depende de ouvir a Palavra de Deus. Os autores anteriormente citados buscaram, na Palavra, a inspiração para os seus escritos. A reflexão acadêmica nos incentiva à criticidade, e esta, de fato, é condição necessária ao pensamento acadêmico. Contudo, diante da Palavra, a leia com amor, examine-a com cuidado, leve em conta os aspectos contextuais, relacione escritura com escritura, e, após seguir esses procedimentos, submeta-se à voz do Espírito. Não despreze a oração, a Palavra de Deus é um tesouro que nos torna sábios para a vida.
Como o disse anteriormente, não pretendo querer ser melhor do que você. Não pense sequer que tenho a pretensão de julga-lo pelo seu modo de pensar. O objetivo dessa missiva é repassar, a partir da experiência particular, o afeto que tenho por tua vida. Saiba que estarei orando sempre por você, e, quem sabe, dentro em breve, nos encontraremos no seio da ekklesía, onde, certamente, partilharemos, pessoalmente, das ricas bênçãos de Aba. Afinal, não se pode ser cristão sozinho. Nenhum homem é uma ilha, já dizia o célebre poeta inglês John Donne.
Talvez você não encontre, na ekklesía, pensadores do quilate de muitas pessoas que você aprendeu a admirar ultimamente. Mas certamente, encontrará, em meio às pessoas simples, alguns que se deleitam em estar ao teu lado e desfrutar de sua companhia. É provável que a música não se compare a uma sonata de Mozart, contudo, mesmo os parcos acordes dos hinos, podem ser valiosos se refletirem uma adoração em espírito e em verdade. A mensagem, talvez, não tenha todo o rigor científico das academias, mas é possível que, a partir da exposição bíblica, você seja surpreendido, como Samuel, pela voz do Deus que fala.
Deixo um saudoso abraço cristão, amado, e votos de que você continue na busca incessante pelo conhecimento. Leia tudo, examine com critérios, e, conforme sugeriu o Apóstolo, retenha o que for bom. Não esqueça de levar cativo todo pensamento a Cristo. Nunca olvide Aquele que é o Autor e Consumador da nossa fé. Para terminar, peço que medite na letra de um hino do grupo Logos que, de certo modo, resume bem o que tenho tentado expor ao longo dessas linhas: “quero ter conteúdo, sabendo de tudo, em volta de mim, mas nunca trocando, a viva Palavra, pelo que eu achava ou deixe de achar”. Um forte abraço cristão.

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