23 de dez de 2007

Deus, mais do que um delírio

O livro “Deus, um delírio”, do cientista Richard Dawkins, recentemente traduzido para o português, vem ocupando lugar de destaque nas prateleiras e listas de vendas das livrarias nas últimas semanas. A temática do livro não traz, como diz o sábio autor bíblico do Eclesiastes, “nada de novo debaixo do sol” (Ec. 1.9). Apropriando-se das antigas idéias de Feuerbach, Marx, Darwin e Freud, entre outros, ainda que não as referencie textualmente, esse conceituado geneticista, desfere golpes contundentes contra todos aqueles que se atrevem a acreditar na existência de Deus. No tocante aos estudos genéticos, Dawkins, inegavelmente, é um dos mais expoentes pesquisadores. Contudo, quando se atreve a teorizar a respeito da religião, revela-se ser um fundamentalista ateísta, com pouco conhecimento das teorias sociais a esse respeito.
A discussão de Dawkins contra a existência de Deus objetiva, em primeiro plano, refutar a Teoria do Design Inteligente, bastante na moda atualmente, principalmente, nos Estados Unidos. O equívoco de Dawkins começa daí, pois, na verdade, nem todos os cientistas concordam com essa teoria. Alister McGrath, conceituado biofísico molecular inglês que se converteu do ateísmo ao cristianismo, em seu livro “O Delírio de Dawkins”, já traduzido para o português, opõem-se veementemente a esse modelo. No ateísmo de Dawkins, bem como na Teoria do Design Inteligente, a proposta é provar, racionalmente, a existência de Deus. As duas cosmovisões estão em pólos opostos, mas ambas se fundamentam no mesmo paradigma: o de que é possível provar ou não a existência de Deus por meio da razão humana. A esse respeito, a principal pergunta que fazemos é: será realmente possível provar ou negar a existência de Deus em laboratório? e mais: esse tipo de empreitada não seria uma tentativa de objetivação dAquele que, definitivamente, não pode ser objetificado?
Em seu livro, Dawkins critica a religião por ser essa a causa de muitas atrocidades realizadas em nome de Deus. Esse autor, contudo, não se apercebe que, em nome do ateísmo, também muito sangue já fora e ainda tem sido derramado em vários países. A forma como esse cientista se coloca em seu texto pode levar os leitores a acreditarem que a religião é sempre negativa. Mas o que dizer das contribuições sociais advindas de religiosos realmente comprometidos com as transformações sociais? Basta citar os exemplos de Mahatma Gandhi, Madre Tereza, Martin Luther King Jr. O extremismo de Dawkins tem sido criticado, inclusive, por cientistas menos dogmáticos. Alguns deles argumentam que, com a publicação de “Deus, um delírio”, seu autor prestou um grande desserviço à ciência, já que favorece tanto a uma concepção arrogante da ciência quanto a uma intolerância em relação à fé.
Esses cientistas estão preocupados com a tendência de Dawkins porque sua postura se enquadra numa perspectiva cientificizada da sociedade moderna. Ele resgata a já questionada crença de que não há limites para a ciência. Em sua defesa entusiasmada, o autor do livro deixa transparecer que haverá um dia em que todas as incertezas que alimentam a fé serão substituídas pelas explicações científicas. Essa supervalorização da ciência tem sido, já algum tempo, revista tanto por filósofos quanto por alguns cientistas menos ufanistas. Os mais equilibrados reconhecem que, quando se trata de Deus, há muito pouco a dizer. Os elementos da natureza não são suficientes para refutar ou provar Sua existência. Sequer somos capazes de conhecer toda a criação de Deus, pois, como bem nos lembra o autor do Eclesiastes, anteriormente citado: “tudo fez formoso em seu tempo; também pôs o mundo no coração do homem, sem que este possa descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até ao fim” (Ec. 3.11).
A respeito da existência de Deus, quando lemos a Bíblia, observamos que essa não é uma preocupação central. Desde Gênesis, o primeiro livro, no capítulo 1 e verso 1, a existência de Deus é tomada como um pressuposto. O conhecimento de Deus, no contexto da Escritura, é alcançado não através da especulação racional, mas do ato graciosamente revelacional proveniente dEle mesmo. Há dois versículos bíblicos, em particular, que revelam essa verdade com bastante clareza. Em Jo. 1.14, esta escrito: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”. O outro se encontra em Hb. 1.1: “Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho”. Ainda que seja possível ter algum vislumbre de um Criador na natureza (Sl. 19) ou na consciência humana (Rm. 1), somente podemos conhecer o Seu amor e a Sua graça por meio de Sua revelação em Jesus Cristo.Enquanto tentamos provar ou negar a existência de Deus, deixamos de contemplar Aquele que se revelou como o Verbo que se fez carne (Jo. 1.1). Ele é a expressão maior de Deus, nEle, encontramos a face do Pai (Jo. 14.9). Deus existe, mas não existe como existe o homem, Ele não pode ser objetificado. Portanto, não é passível de comprovação científica. Por ser um Deus Revelador e Revelado, podemos tão somente nEle crer e obedecê-Lo. A esse respeito, lembremos de Tomé que precisou ver para crer, Jesus, no entanto, lhe disse: “Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo. 20.29). Um mundo melhor não depende nem do avanço científico, e muito menos de uma religiosidade aparente, mas de uma atitude de obediência e submissão à vontade de Deus para carregar a cruz com Aquele que fora crucificado (Mt. 16.24). Diante dEle, poderemos, como Tomé, cair aos Seus pés, reverentemente, reconhecendo-o como “Senhor meu, e Deus meu!” (Jo. 20.28).

26 de nov de 2007

Por que orar?

Somos todos produtos da modernidade, talvez, por isso, tenhamos tanta dificuldade de orar. Por que apelar para a oração se podemos resolver tudo como num passe de mágica? Ligamos a TV, e, por meio dos noticiários, é possível saber se vai chover ou fazer sol no final de semana. Se sentimos dores de cabeça, podemos lançar mão de algum analgésico que fará o incômodo passar repentinamente. Se estamos distantes de casa, basta apenas pegar o aparelho celular e discar alguns números para falar com o cônjuge e saber como as crianças estão. A tecnologia nos provê tantos recursos que, às vezes, somos tentados a pensar que a oração é uma atitude desnecessária, para não dizer inútil.
Por que orar? Essa é uma pergunta que me tenho feito constantemente nesses últimos dias. Ao ler as Escrituras, e alguns livros a respeito, observo, na prática, a necessidade real de trilhar o caminho paradoxal da oração. O motivo primordial para valorizar a oração é que Jesus orou inúmeras vezes quando andou pelas estradas empoeiradas da palestina. Se Ele, sendo quem foi, orou, por que nós não faríamos o mesmo? O Senhor nunca se deixou controlar pela visão ativista dos seus contemporâneos. Sempre que o queriam fazer rei, envolvê-lo em algum movimento revolucionário, Ele se ausentava, e à sos, orava. É fato que Ele, mesmo desfrutando de profunda intimidade com o Pai, não teve todas as suas orações respondidas, ainda que, inquestionavelmente, tenham sido ouvidas.
Jesus orou para que o cálice do calvário passasse, fazendo a ressalva de que a vontade do Pai deveria prevalecer. Em submissão ao anseio soberano do Pai, Jesus precisou ir a cruz pelos nossos pecados. Ainda que o cálice não tenha passado, Cristo, no entanto, se levantou daqueles momentos tensos, regados a gotas de sangue, preparado para enfrentar os desafios que haveriam de vir. O valor da oração repousa, nem sempre, na obtenção do que desejamos. É claro que podemos pedir a fim de que o Senhor intervenha nos aspectos mais singulares de nossa existência. Contudo, mesmo que não venhamos a alcançar o que pedimos, descansamos na certeza de que Ele fará sempre o que for melhor, ainda que não o entendamos a princípio. O objetivo primordial da oração não é ter as coisas que Deus pode nos dar, mas é estar em Sua companhia, desfrutando de Sua presença.
Quando oramos, reconhecemos as limitações da existência humana. Aceitamos nossa incompletude, percebemos que somos seres inacabados. Orar é, antes de qualquer coisa, nos relacionarmos com Deus. Sendo Ele infinito, e nós, finitos, precisamos aprender os contrapontos inerentes a esse tipo de relação. Às vezes não dispomos dos termos adequados, não conseguimos empregar a linguagem de forma correta. Felizmente o Espírito Santo nos auxilia, levanto, pelos gemidos inexprimíveis, nossas petições ao Senhor. Mas precisamos cuidar para que nossas orações não passem de práticas egoístas. A oração é necessária também para exercitar nossa sensibilidade em relação aos outros. Quando intercedemos, mostramos o quanto estamos interessados pelos problemas daqueles que nos rodeiam. Orar é também uma expressão de perdão, por isso, quando oramos por aqueles que se opõem a nós, observamos que toda mágua se esvai.
Não oramos apenas para vencer nossos sentimentos em relação aos outros, oramos, principalmente, para sobressair aos obstáculos do dia-a-dia. Quando colocamos as atividades rotineiras diante do Senhor, as atividades começam a se organizar. Nossos medos, pavores e ansiedades também podem ser vencidos por meio da oração. Nossos desejos mais íntimos se iniciam por meio da oração. Oramos na intenção de que Deus transforme o nosso país, para que os governantes tenham mais responsabilidade, que sejam capazes de resistir à tentação da corrupção. Orar, nesse e em outros sentidos, é atuar sobre a sociedade, na busca de que essa seja transformada pelo poder do evangelho de Cristo.Assim, quanto mais o tempo passa, e mais tecnologia tenho ao meu dispor, vejo o quanto precisamos valorizar a oração. É a partir dela que a realidade espiritual passa a fazer algum sentido nessa era tão materialista. Por meio da oração podemos integrar duas realidades que se encontram distanciadas. Quanto menos oramos, mais materialistas nos tornamos, orar, por conseguinte, é um ato contínuo não só de revolução, mas, sobretudo, de rendição. Toda apostasia se inicia através do distanciamento da oração. Se fugimos da oração é porque ela nos instiga à obediência, e vendo desse prisma, orar pode ser algo extremamente arriscado, principalmente, para aqueles que querem conduzir os ditames de suas vidas sem qualquer intervenção divina. Se quisermos ser vencidos pela vontade de Deus, orar é o primeiro passo.

29 de out de 2007

As marcas de Cristo

Quais são as marcas de um verdadeiro cristão? Nos dias atuais, em que muitos propalam serem evangélicos, é preciso que tenhamos um critério bíblico que avalie aqueles que, de fato, têm algum comprometimento com o evangelho de Cristo. Paulo, em sua epístola aos Gálatas, fala de marcas que o identificavam como cristão. Diz assim o apóstolo: “desde agora ninguém me inquiete; porque trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus”. A que marcas o apóstolo dos gentios se referia? Como podemos desenvolvê-las na constituição de uma identidade genuinamente cristã? A fim de responder a essas perguntas, façamos, a princípio, uma abordagem contextual dessa passagem.
Nessa época, o apóstolo estava sendo perseguido por um grupo de opositores, denominados de judaizantes, os quais, questionavam sua autoridade apostólica. Esses inimigos da cruz de Cristo seguiam o trajeto de Paulo, “despregando” sua mensagem evangélica. O alvo deles era inserir práticas judaicas no protocristianismo, dentre essas, a circuncisão, enquanto rito obrigatório para aqueles que quisessem seguir a Cristo. Ao longo dessa Epístola, Paulo mostra a fraqueza dessa prática, em face da suficiência do sacrifício de Cristo na cruz. Ele mostra, com argumentos contundentes, que, ao se voltarem para os rudimentos antigos, os crentes da Galácia estariam retrocedendo na fé, ou pior, decaindo da graça.
Ao se opor à prática da circuncisão, negado-lhe a validade (Gl. 5.6), Paulo aponta para uma outra marca. Essa, inicialmente, era de cunho físico, tratava-se de seus ferimentos resultantes das perseguições por amor a Cristo. A palavra que Paulo usa, para se referir a essa marca, é stigma, que somente ocorre, no Novo Testamento, em Gl. 6.17. Os sofrimentos físicos pelos quais Paulo passou estão registrados em II Co. 11.23-25, referindo-se a eles, o apóstolo dizia está completando, em seu corpo, as dores de Cristo (Cl. 1.24). Ele sabia que todos aqueles que servem piedosamente ao Senhor padecerão perseguições (II Tm. 3.12). Os verdadeiros seguidores de Jesus carregam a cruz do discipulado (Mt. 16.24).
O stigma de Paulo, por servir a Cristo, remete, também, ao antigo costume judaico de marcar os escravos antigos (Ex. 21.6). Somos identificados, como pertencentes ao Senhor, pelas marcas do fruto. Os aspectos dessa virtude espiritual se encontram em Gl. 5.22: amor – é o fundamento do fruto, manifesta-se na disposição em doar a si mesmo (I Co. 13; Gl. 5.13; Rm. 5.2-5; Ef. 5.23-32; 5.1,2), a exemplo de Cristo (Jo. 3.16; I Jo. 3.16); alegria – alegria que independe das circunstâncias (At. 2.46; Rm. 14.7; 15.13; Fp. 4.4); paz – que não se atribula perante as adversidades (Is. 26.3; Jo. 14.26,27; Cl. 3.15); longanimidade – tolerância para suportar os momentos difíceis (Sl. 119.71; Rm. 5.3,4; Hb. 12.7-11; Tg. 1.3,4; 5.10,11; I Pe. 2.20); benignidade – disposição graciosa para fazer o bem (Ef. 4.31,32; 5.1,2); bondade – é a prática da benignidade (Rm. 15.14; Gl. 5.22; Ef. 5.9; II Ts. 1.11), mais precisamente, da generosidade (II Co. 8.1-15; Gl. 6.9,10; I Pe. 4.8-10); fidelidade – a fé que prevalece, apesar das tribulações (Rm. 5.1,2; Hb. 6.12; I Jo. 2.6); mansidão – submissão e humildade em relação a Deus e ao próximo (Mt. 11.29; Tg. 1.21; Gl. 6.1; I Pe. 3.15,16); e domínio próprio – controle diante das tentações (Tt. 2.11,12; II Pe. 1.5,6; I Co. 7.9; 9.25).
A produção dessas marcas na vida do cristão não se dá de maneira instantânea, como acontece com os dons espirituais (I Co. 12). É resultado do enxerto contínuo nAquele que é a Videira Verdadeira. Em Jo. 15.1-17, Jesus se utiliza dessa metáfora campestre para nos deixar uma lição primorosa sobre a produção do fruto espiritual. Existem ramos que por não produzirem frutos, serão cortados da videira (Jo. 15.2). Alguns ramos perdem sua ligação, por isso, serão lançados no fogo e queimados (Jo. 15.4). Os que produzem frutos são podados e limpos para que dêem mais frutos ainda (Jo. 15.2). Jamais devemos esquecer que é por meio do fruto que seremos conhecidos, ou para usar uma expressão mais específica, marcados (Mt. 7.16-20). Essa marcação não se trata de algo meramente exterior, ela resulta de uma processo contínuo de transformação que parte do íntimo do cristão, na medida em que esse passa a ser nova criatura (II Co. 5.17).
Existe uma pequena história que ilustra bem esse processo. Conta-se que um homem tinha um cão valente que costumava perseguir os vizinhos, e em alguns casos, mordê-los. Preocupado com a situação, o dono do animal teve uma idéia, e pediu à sua esposa que fizesse uma mordaça para que a fera não mais perturbasse as pessoas. A idéia funcionou, o cão deixou de morder os transeuntes, mas, infelizmente, não deixou de correr atrás. Isso revela o que acontece na vida de muitos cristãos que não conseguem produzir as marcas espirituais de Cristo. Não permitiram que o Espírito produzisse, neles, o Seu fruto. Por isso, andam na contramão do mestre, seguindo as obras da carne. Esses ainda não aprenderem a desfrutar dos benefícios exarados por Jesus em Mt. 11.28, por isso, restam-lhes apenas fardos e jugos pesados para carregar.

24 de set de 2007

Mamom, o deus deste século

A palavra Mamom se encontra, na Bíblia, em Mt.6.24, num contexto no qual Jesus critica aqueles que fiam sua segurança nas posses materiais. No seu conhecido Sermão do Monte, o Mestre adverte: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom”. A título de esclarecimento, esse deus, de acordo com os estudiosos, era adorado entre os antigos caldeus e estava associado ao poder das riquezas. Jesus, sabendo da força que esse deus exercia no seu tempo, e viria a ter em todos outros, ressaltou, com bastante realismo, os perigos de se deixar conduzir pelos ditames dessa divindade.
Na medida em que o tempo passa, percebemos, assustadoramente, que o poder de Mamom tem acrescido. Ele recebe todas as honrarias possíveis e é adorado como se fosse uma prática natural. Há dias em que se diz que esse deus está mais ou menos agitado. Seus sacerdotes fazem todo o esforço possível para apaziguá-lo, na maioria das vezes, oferecendo sacrifícios humanos. Seus exegetas tentam, sem muito êxito, interpretar suas vontades e caprichos. Essa, contudo, não é uma tarefa fácil, pois sua linguagem é numérica, fria e calculista. Em sua expressividade não há espaço para a oração e a poesia.
Seguindo o percurso da religiosidade pagã, Mamom também desconhece qualquer manifestação de graça. O favor imerecido tão freqüentemente citado no evangelho de Cristo. Seu projeto principal é por os indivíduos no ciclo da dependência. Através de sua propaganda consumista, tenta fazer prosélitos, levando muitos a acreditar que não existe vida fora de realidade que criou. O reino de Cristo se opõe, frontalmente, a esse círculo vicioso. Ao invés da escravidão do ter, em detrimento do ser, Jesus nos ensina a desfrutar dos cuidados amorosos do Pai, que cuida de nós em todas as circunstâncias (Mt. 6.25-34).
Paulo, como bom aluno de Cristo, aprendeu a seguir os seus passos, de modo que, em suas epístolas, orienta seus leitores a devotarem sua fé, exclusivamente, a Deus, e, a partir desta, serem capazes de conviver tanto com os momentos de fartura quanto de necessidade (Fp. 4.6,7,10-13). Esse apóstolo estava tão ciente da ameaça de Mamom, à fé cristã, que orienta o jovem Timóteo a investir na “piedade com contentamento” (I Tm. 6.6). É uma pena que essa moeda esteja em queda no mercado secular, em detrimento do desejo desenfreado de ter sempre mais. A esse respeito, Paulo acrescenta que “o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores” (v. 10).
É uma pena observar que, nos dias atuais, essa doutrina, intitulada de teologia da prosperidade, que prefiro chamar de teologia da ganância, esteja em plena discordância com Cristo e com Paulo. Essa verdade é contundente no Novo Testamento, vejamos, por exemplo, o que diz o autor da epístola aos hebreus: “Sejam vossos costumes sem avareza, contentando-vos com o que tendes; porque ele disse: Não te deixarei, nem te desampararei” (Hb. 13.5). A Bíblia inteira faz coro a essa sábia revelação, basta abrir e conferir as passagens a seguir: Ec. 5.10-11; Lc. 12.15; II Co. 4.18; Lc. 12.21; Pv. 23.4-5; Jó. 31.24-28. À guisa de conclusão, façamos, no entanto, uma ressalva a fim de não confundirmos contentamento com falta de diligência ou ociosidade. A mesma palavra que se opõe à adoração a Mamom também nos mostra a relevância do trabalho (Gn. 3.19; Jo. 5.17; Ef. 4.28; I Ts. 2.9; II Ts. 3.8). Mais que isso, o evangelho de Cristo ensina que devemos fazer tudo com dedicação e fé (Rm. 14.23), não como para homens, mas para Deus (Ef. 6.7). A reprovação bíblica é quanto ao espírito ganancioso que põe o ter como um fim em si mesmo. É válido lembrar que, por razões justificáveis, nas cédulas brasileiras e americanas, está escrito, respectivamente: “Deus seja louvado” e “Em Deus nós confiamos”. Tais declarações não estão ali por acaso e remetem à enfática e exclusivista mensagem profética de Jesus: “Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a Ele servirás” (Mt. 4.10).

26 de ago de 2007

Vinte anos de fé

Passado o mês de agosto, tenho a oportunidade de celebrar, por esses dias, vinte anos de caminhada na fé cristã. Poderia muito bem deixar passar desapercebida essa data, mas, sinceramente, em se tratando de um número tão significativo, e de um trajeto já considerável, não posso perder essa oportunidade para tecer e partilhar, com o dileto leitor, algumas impressões a respeito do movimento evangélico brasileiro, pelo menos do que tenho testemunhado ao longo desses poucos anos. Para começar, destaco que, nos idos de 1987, éramos denominados de “crentes”, e não de evangélicos, como hoje. E agregado à essa nomenclatura, havia um certo desdém por aqueles seguidores do livro de capa preta.
Diferentemente daqueles dias, somos, nos dias atuais, chamados de evangélicos, recebemos uma nova identidade, obtivemos o reconhecimento público, principalmente dos políticos, e, ao que tudo indica, não muito depois desses anos, seremos uma das maiores nações de confissão evangélica do mundo. Para alguns eufóricos, ganhamos muito com tudo isso, mas receio que estejamos recaindo no entusiasmo frustrante de alguns cristãos do terceiro século, quando o imperador Constantino liberou os seguidores de Cristo das arenas romanas. Acabaram as perseguições, mas, por outro lado, o comprometimento com a revelação bíblica arrefeceu os alicerces que haviam sido defendidos, com tanto afinco, pelos apóstolos, os quais foram substituídos por crenças pagãs.
Quando analiso o contexto atual dos evangélicos brasileiros, à luz das doutrinas bíblicas e da história da igreja, sou instado, com inquietude espiritual, a retornar ao norte, aos fundamentos da fé, e, a partir deles, reafirmar o que creio, como condição à continuidade da jornada. Primeiro, não me nego a ser rotulado de evangélico, contanto que se explicite o que se quer dizer com esta palavra. Ser evangélico, para mim, é mais do que pertencer a uma igreja que se diga evangélica, é ter compromisso com os postulados de Cristo, testemunhados, com alegria, pelos apóstolos e profetas bíblicos. Por se tratar de uma mensagem divina, que salva por meio da fé, instiga os religiosos ao escândalo, por não entenderem o sentido da graça que se manifestou na cruz do calvário.
Nego-me a ser conduzido por revelações religiosas subjetivistas, pautadas na mera experiência humana, que não façam coro ao texto bíblico. Não que esteja negando os fundamentos da doutrina pentecostal, muito pelo contrário, quando leio os escritos de homens como Gunnar Vingren, Orlando Boyer, entre outros, percebo que a doutrina pentecostal, em sua formação, sempre esteve atrelada à sólida doutrina bíblica. Talvez seja o caso de retornarmos ao estudo da Bíblia, bem como à oração constante, por meio dos quais poderemos chegar ao pleno avivamento. Ao longo desses anos, observo que o acúmulo de tecnologia, mesmo com a difusão das Bíblia computadorizadas, não tem garantido um acréscimo de conhecimento bíblico.
Os pregadores, com raras exceções, pautam-se em textos bíblicos isolados, cujo fim é apenas reforçar idéias preconcebidas. Lembro-me, com carinho, dos antigos pregoeiros pentecostais, os quais, mesmo sem a disponibilidade do aparato bibliográfico e tecnológico que temos hoje, já se esforçavam para expor o texto bíblico, expositivamente. Testemunho, com tristeza, que muitos púlpitos não mais servem à ministração bíblica. Transformaram-se em palcos, nos quais atores tentam atrair, a qualquer custo, a atenção da audiência. Os expectadores, por sua vez, não fazem qualquer exigência quanto ao ensinamento proferido, o que lhes interessa é voltar para sua casas alegres, ou como se costuma dizer, “com a auto-estima elevada”.
Como o caro leitor deva ter percebido, muita coisa mudou ao longo desses últimos vinte anos. Mas apesar de todos esses percalços, continuo reafirmando minha fé na graça de Cristo Jesus. A descaracterização do movimento evangélico brasileiro não conseguiu me tirar o fulgor do genuíno evangelho, o qual, nas palavras de Paulo, é poder de Deus e salvação para todo aquele que crê. Além do mais, quando penso na nuvem de testemunhas que viveram e morreram por essa mesma fé, esqueço de muitas das coisas que para trás ficam, e, deixando para trás todo embaraço, sigo adiante, na expectação de que Deus, como Senhor da história, a seu tempo, porá todas as coisas na devida ordem. Enquanto aguardo, mantenho os olhos fitos em Jesus. Ele continua me dando motivos para celebrar.

16 de jul de 2007

Cristo e a Igreja Verdadeira

Joseph Ratzinger, o Bento XVI, causou incômodo às igrejas evangélicas, ao declarar, recentemente, que a Igreja Católica Romana é a única igreja verdadeira. Seu posicionamento não nos surpreende, haja vista ser esta apenas uma reedição do que ele já havia escrito no Dominus Iesus, enquanto ainda Cardeal da Doutrina da Fé, no Vaticano. A justificativa de Ratzinger é a de que as comunidades que não fazem parte da sucessão apostólica, que remete a Pedro, não poderiam ser propriamente denominadas de Igreja. Ratinzger parece ter plena convicção de que Pedro teria sido realmente o primeiro papa. Uma análise acurada, à luz da Bíblia e da história, porém, não evidencia tal certeza. Ademais, se Pedro chegou mesmo a ser papa, o que duvido, teria sido diferente do que conhecemos como papado hoje.
O Pedro bíblico era uma pessoa que não dispunha de tantos recursos financeiros como acontece hoje. Certa feita, conforme lemos em Atos 3.6, quando um homem lhe pediu uma esmola, o apóstolo do Senhor respondeu: “não tenho prata nem ouro; mas o que tenho isso te dou. Em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, levanta-te e anda". Ademais, o Pedro da Igreja Primitiva era um homem que reconhecia não passar de um servo, por isso, não aceitou qualquer veneração humana. Como registra o livro de Atos, no capítulo 10, versículos 25 e 26, por ocasião de sua visita a Cornélio, deixou claro que não aceitaria que os homens se dobrassem perante ele, quando disse: “também sou homem”.
No evangelho de Mateus, no capítulo 8, versículos 14 e 15 lemos que a sogra de Pedro fora curada por Jesus. Concluímos, assim, que Pedro era casado, e conseqüentemente, não era adepto do celibato como os papas de hoje. Em acréscimo, Pedro parece não ter sido infalível, nem mesmo nas questões doutrinárias, é o que depreendemos da Epístola de Paulo aos Gálatas. No capítulo 2 e nos versículos de 11 a 14, Paulo diz que o resistiu “na cara, porque era repreensível”. Isso porque Pedro se encontrava em companhia dos gentios, mas quando chegaram alguns judeus, ele se afastou dos não-judeus, por isso, foi corrigido pelo apóstolo dos gentios.
Do ponto de vista bíblico, parece que o apóstolo Tiago teve um papel mais preponderante do que Pedro na igreja primitiva. No capítulo 15 de Atos, no primeiro concílio da Igreja de Jerusalém (que não era romana), foi Tiago quem conduziu as discussões em torno dos gentios. E finalmente, é da sua boca que saem os encaminhamentos para os cristãos não-judeus, não de Pedro, como se deveria esperar. Na epístola do Apóstolo Paulo, aos crentes da Galácia, no capítulo 2 e no versículo 9, a ordem das “colunas’ da igreja são “Tiago, Cefas [Pedro] e João”. Se Pedro era o mais importante, por que ele não foi citado primeiramente, somente depois de Tiago?
Em virtude da improbabilidade histórica de que Pedro tenha sido o primeiro papa, a Igreja Romana limita-se à declaração de Jesus, em Mateus, capítulo 16, versículos 18 a 19, para defender o papado de Pedro. Após este apóstolo ter afirmado que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus Vivo, Jesus disse: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela; E eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus”. A questão crucial, aqui, é: a igreja foi edificada sobre Pedro ou sobre Cristo? Quem é, então, a pedra? Deixemos que o próprio Pedro responda.
Em seu sermão, em Jerusalém, no capítulo 2 de Atos, no versículo 11, Pedro justifica a superioridade de Cristo, afirmando que “Ele é a pedra que foi rejeitada por vós, os edificadores, a qual foi posta por cabeça de esquina”. Ainda na sua Primeira Epístola, no capítulo 2 e no versículo 4, diz: “E, chegando-vos para ele, pedra viva, reprovada, na verdade, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa”. Se o testemunho de Pedro, o suposto primeiro papa não for suficiente, apelemos para o que diz Paulo, em sua primeira carta aos Coríntios, no capítulo 10, versículo 4. Naquela passagem, Paulo fala que os judeus, no passado, beberam água de uma pedra espiritual, e que essa “era Cristo”. Já no Antigo Testamento, no livro de Daniel, capítulo 2 e versículo 34, Jesus foi profetizado como a pedra que foi cortada sem auxílio de mãos.Se recorrermos, lingüisticamente, a Mt. 16, o texto supracitado, veremos também que em grego, a língua em que o Novo Testamento foi escrito, o substantivo feminino petra designa uma rocha grande e firme. Enquanto que o substantivo masculino petros é aplicado para se referir a pequenos blocos rochosos, pedras pequenas ou pedregulhos. Pedro, portanto, não passaria de um pedregulho, isto é, uma parte da pedra maior, rochosa e firme, que, inquestionavelmente, é Cristo. Todos nós, cristãos de todas as épocas, somos pedras pequenas, que, ao reconhecer o senhorio de Cristo, nos tornamos partes dessa Rocha sólida e firme. Uma igreja, portanto, para ser considerada verdadeira, não depende de uma sucessão apostólica, mas de seguir os passos de Cristo, a Rocha inabalável.

30 de jun de 2007

Um Abraão que poucos conhecem

Abraão é considerando, por várias religiões do mundo, o pai da fé. Por essa razão, parece ser compreensível que, de vez em quando, ouçamos alguma mensagem religiosa que trate de sua relevância espiritual. Mas poucas vezes Abraão esteve em tanta evidência quanto atualmente no contexto evangélico brasileiro. Ele é o personagem favorito de muitos pregadores, principalmente, aqueles dos meios de comunicação de massa. Eles ressaltam, com todas as conjecturas possíveis, a fé do patriarca, o qual, saiu do meio de sua parentela e foi para uma terra longínqua, conforme prometido pelo Senhor, bem como sua disposição ao oferecer seu filho em sacrifício obediente à prova de Deus. Nada, porém, parece atrair mais esses mensageiros, do que a fé “inabalável” de Abraão, principalmente, quando se trata da obtenção de recursos materiais.
Nos programas televisivos, “sermões” com essa proposta são bastante recorrentes. Inconformado com tanta repetitividade, resolvi voltar-me às páginas da Bíblia para ver o que ela, de fato, tem a dizer a respeito de Abraão. Surpreendentemente, encontrei, no livro sacro, um Abraão que poucos conhecem. Se o amado leitor me permite, gostaria de partilhar algumas das percepções que tive a respeito desse que é o principal patriarca do livro do Gênesis. A princípio, observei que, ao contrário do que se costuma postular, o Abraão bíblico nada tem com o espírito ganancioso tão amplamente propalado pelos arautos da prosperidade material. Quando ele saiu do meio de sua parentela, teve de abrir mão de todas os benefícios da terra de Ur para se tornar nômade até que a promessa de Deus se cumprisse em sua vida.
A riqueza, para o patriarca, não era, definitivamente, o principal alvo de sua vida. Em certa ocasião, ele demonstrou desinteresse na obtenção de recurso ilícito, que, de algum modo, viesse a macular seu testemunho perante Deus (Gn. 14.22-24). Não podemos negar o enriquecimento de Abraão, contudo, seria reducionismo pensar que ele punha, nelas, sua confiança. Na verdade, seguindo à diretriz do Senhor, sabia que nada poderia ter primazia no seu coração, a não ser o Senhor, seu precioso galardão (Gn. 15.1). Nem mesmo seu filho, gerado em sua velhice, poderia ocupar o lugar de Deus. Abraão, em atenção à voz do Senhor, precisou se desvencilhar dos riscos de idolatrar seu próprio filho, e seguiu ao monte para sacrifica-lo. Esse mesmo Deus, porém, não permitiu que o sacrifício fosse levado adiante.
Abraão fora aprovado nesse teste, contudo, não devemos nos iludir e pensar que o patriarca não teve seus momentos de fraquezas. Certa feita, diante da ameaça de seca e fome, Abraão “desceu para o Egito” (Gn. 12.10). Por alguns momentos, deixou de acreditar que Deus lhe pudesse prover os suprimentos necessários para viver na terra prometida. Quando se deixou levar pelas circunstâncias, teve de se ocultar por detrás de sua esposa (Gn. 12.12), recomendado, inclusive, que ela mentisse se achasse necessário, a fim de protegê-lo (v. 13). O medo de Abraão (e o de todos nós) é o de que venhamos a perder o controle das situações futuras (Gn. 12.13). É irônico perceber que o velho patriarca acabou sendo corrigido pelo rei pagão a quem tanto temia (Gn. 20.17).
É fascinante o realismo com que a Bíblia retrata seus personagens. Ao mesmo tempo em que apresenta Abraão como um dos heróis na galeria da fé (Hb. 11.8), não oculta suas fraquezas e limitações. No entanto, a vida daquele homem de Deus continua sendo um exemplo marcante para todos nós cristãos. Mas precisamos aprender tanto com suas virtudes quanto com suas fraquezas. A maior lição que podemos extrair da vida de Abraão é que o patriarca é chamado, por Deus, de amigo. A recomendação de Deus, para Abraão, também tem sua serventia para nós. O Senhor disse: “Abraão, anda na minha presença e sê perfeito” (Gn. 17.1). Essa não é uma tarefa fácil, a menos que dependamos do Espírito Santo. E, a todo tempo, mantivermos nosso olhos fitos em Cristo, o exemplo maior de perfeição. Se Abraão é reconhecido como o pai da fé, Jesus é, sem sombra de dúvida, o Autor e Consumador da nossa fé (Hb. 12.2).

27 de mai de 2007

Princípios de Jesus para a oração

Como não sabemos orar como convém, devemos, com humildade, chegar, como os discípulos o fizeram, e, diante do Mestre, pedir: Senhor, preciso orar com urgência, ensina-me! Esse pedido é necessário, porque, em virtude da natureza egoísta do ser humano, somos constantemente tentados a orar de acordo com os interesses particulares, os quais, podem estar distanciados do propósito de Deus. É comum ouvirmos orações que nada mais são do que a expressão das projeções humanas, e, em alguns casos, de ambições frustradas. É preciso também atentar para o fato de que em uma sociedade influenciada pelo consumismo, é possível que estejamos fazendo não as orações que Deus pôs em nosso coração, mas aquilo que a propaganda colocou em nossas mentes.
Para não incorrermos nesse equívoco, e orar apropriadamente, só há uma alternativa, é a de nos voltarmos para os princípios que Jesus deu aos seus discípulos a respeito da oração. A oração do Mestre nos impulsiona, antes de qualquer petição, ao reconhecimento da paternidade divina, ao fato de que Ele, como nosso Aba, é o amigo fiel com quem podemos desfrutar de intimidade. Não podemos esquecer que o objetivo central da oração é o desenvolvimento de um relacionamento cada vez mais íntimo com o Pai, com o “nosso” Pai. Esse “nosso” não pode passar desapercebido, por que nos inclina para a percepção de que, mesmo orando sozinhos, no recôndito do quarto ou em conjunto, na congregação, somos irmãos, portanto, filhos do mesmo Pai, reunidos debaixo da graça e do amor sacrificial de Cristo.
A percepção da paternidade divina é importante para que não incorramos no erro de pensar que Deus não passa de uma máquina na qual inserimos uma cédula com vistas à obtenção de algum produto desejado. Sendo Ele o nosso Pai, devemos, antes de tomar qualquer atitude, demonstrar humildade, a fim de alcançarmos, dEle, alguma graça. Um outro aspecto importante a ser considerado é que as súplicas primárias não são em relação a nós mesmos, mas ao reino de Deus. A intercessão missionária para que todos saibam que Deus é santo, que somos pecadores, achados e amados pelo Pai. Que o reino de Deus se estabeleça, já agora no território do coração dos homens, e, ao mesmo tempo, no anseio escatológico do que ainda está por vir, quando Cristo, por fim, estabelecerá seu reino futuro.
Em todos os momentos, não podemos esquecer que a vontade de Deus deva ser soberana em relação à vontade humana. Oramos mal quando queremos cumprir apenas os desejos da natureza humana, e, muitas vezes, na ânsia de cumprir as concupiscências carnais. Orar, em muitas situações, é rendição, ou seja, é abandonar as nossas vontades em prol da vontade de Deus que é sempre boa, perfeita e agradável. Seu projeto para nossas vidas é que vivamos em contentamento, não em conformismo, e isto quer dizer que devemos fazer o melhor para ter uma vida agradável, sem perder de foco que a meta é sempre a obtenção do “pão nosso de cada dia”, afinal, Ele sabe do que temos necessidade, portanto, não há porque temer as adversidades.Mas é possível que a adversidade não venha da carência de recursos, mas do sofrimento causado pelos outros. Nesses casos, não há outra saída senão apelarmos para o fruto do Espírito, e, com graça e amor, exercitar o perdão. O fundamento para esse exercício está na convicção de que fomos perdoados por Deus, e, portanto, devemos fazer o mesmo. Quando somos guiados pela graça de Deus, não somos levados pela tentação do Maligno. Ainda que Ele esteja à espreita, como um leão buscando nos devorar, sabemos que temos armas poderosas, em Deus, para vencer o príncipe desse mundo tenebroso. Quando ele oferecer as glórias do seu reino secular, que a rejeitemos, lembremos que não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Quando ele exigir de nós adoração, voltemos para o Senhor, reconhecendo que somente Ele é digno de toda honra, glória e poder. Não só agora, mas pelos séculos dos séculos. É assim que, rendidos aos pés do Mestre, ainda que contra a nossa vontade, dizemos: “assim seja”. E, seguindo tais princípios, aquilo que já está estabelecido no céu, também estará na terra, para a glória de Deus.

22 de abr de 2007

Na casa de Aba

É interessante observar que na cultura judaica antiga, em seu temor extremado ao Senhor, o povo não se atrevia a chamá-lo de Pai. Ele era aquele cujo nome não poderia jamais ser mencionado, no máximo o Adonai, isto é, o meu Senhor, diante do qual deveria se prostrar reverentemente. Os religiosos dos tempos de Jesus, escondidos sob a fachada do legalismo, não desfrutavam de intimidade com Deus, e se opunham aos que o quisessem fazê-lo. Jesus denunciou essa atitude em uma parábola, na qual retrata a história de um filho, cujo interesse por desfrutar dos prazeres da vida o levou a se distanciar do pai, pedindo e gastando, antecipadamente, sua herança. Depois de ter passado fome e necessidade, voltou para os braços do Pai, o qual o recebera com júbilo.
Mas essa narrativa tem outro lado. Esse pai tinha dois filhos. O que ficara se queixou de seu pai por ter recebido seu irmão com tanto gozo, após tudo que havia feito. Ele argumentou que seu irmão não merecia tamanha honra. Ele sim, por ter sido um bom filho ao longo de todo o tempo e jamais ter se distanciado – ainda que fisicamente – do seu progenitor. O pai o respondeu que tudo sempre esteve à disposição dele, e, se não o tinha desfrutado, foi porque não ousou fazê-lo. Com essa parábola, Jesus objetivava mostrar, aos fariseus, o quanto eles estavam perdendo por não buscar uma vida de intimidade real com o Pai. Ao contrário, eles censuravam todos aqueles que se aproximavam de Jesus, principalmente os que consideravam pecadores.
Em se tratando de intimidade com Deus, Jesus abriu um novo horizonte. Quando seus discípulos pediram-no que lhes ensinasse a orar, iniciou com a palavra “Pai” (Mt. 6.9). No aramaico, língua falada pelos judeus da época de Jesus, o termo era “Aba”, que significa, literalmente, papaizinho (Mc. 14.36). É a expressão de uma criança que se dirige, com amor e respeito ao seu pai. Desde então, temos pleno acesso para nos dirigir a Deus, em oração, chamando-o de Pai (Aba). Trata-se de algo tão marcante que João escreveu: “a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” (Jo. 1.13) e em uma de suas epístolas: “Vede quão grande amor nos tem concedido o Pai, que fôssemos chamados filhos de Deus” (I Jo. 3.1).
Como isso veio a acontecer nos é explicado por Paulo, em Gl. 4.4-7: “Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E, porque sois filhos, Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. Assim que já não és mais servo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo”. Portanto, por causa do caminho que Cristo nos preparou, podemos, com Ele, nos aproximar de Deus, desfrutar de intimidade com Ele. E, como Jesus nos ensinou na oração, chamá-lo de Pai, ou como dizem as crianças, “paizinho”. É uma pena que os cristãos, talvez por terem se acostumado com a idéia, deixaram de perceber o profundo significado de ser filho de Deus.
Inicialmente, ser filho do Pai é um grande privilégio. Quantos se vangloriam por serem filhos de um político influente ou de um ator famoso da televisão, nós, mais ainda, pois somos, não apenas filhos de Deus, mas co-herdeiros com Cristo. É maravilhoso saber que não estamos sós no mundo, que temos um Pai que está sempre do nosso lado. Que podemos depender dEle nos momentos mais difíceis da vida. Somos alvo da graça e do amor do Pai. Como os filhos pródigos da parábola, podemos voltar ou estar sempre em casa, desfrutando dos Seus cuidados e proteção. Em uma época que as pessoas se angustiam por não serem amadas, podemos descansar na certeza de que somos amados do Pai.Ser filho do Pai, além de ser um privilégio, é também uma responsabilidade.
Como todo filho tem traços característicos do seu pai, nós, filhos do Pai, não podemos ser diferentes. Mas não é algo que vem pela força, e muito menos pela violência. É no convívio diário com o Pai, através do Seu Espírito, ouvindo a Sua Palavra, que o filho, paulatinamente, vai se tornando mais parecido com o Pai. Para ser filho do Pai, há apenas uma exigência, é preciso que, como o filho da parábola, reconheçamos o quanto somos necessitados dos Seus cuidados graciosos e amorosos, recebamos o Seu perdão e nos entreguemos sem reservas a fim de que Ele, como um bom pai, passe a orientar nossas vidas. Quando isso acontece não há fardos, e muito menos jugos pesados a serem carregados. Essa é a alegria de estar na casa de Aba, onde há amor e graça.

24 de mar de 2007

Extra! Extra! boas notícias!

Certo dia, após chegar em casa, depois de um dia longo de trabalho, liguei o rádio. O locutor narrava a morte de mais uma mulher, assassinada, inescrupulosamente, pelo próprio marido. Decidi, então, assistir ao noticiário televisivo. O apresentador do jornal noticiava mais um atentado terrorista no oriente médio e uma série de mortes decorrentes de uma guerra insana justificada por interesses petroleiros. Não suportei. Peguei uma revista que, na capa, trazia a foto de uma criança que havia sido arrastada por um veículo roubado e conduzido por um grupo de jovens delinqüentes. Essa é a sociedade da informação: notícias, muitas notícias, mas, infelizmente, más notícias.
Será que não existem boas notícias que sejam dignas de ser propagadas? Para ser mais específico, será que alguém assistiria ou compraria um jornal que só trouxesse notícias agradáveis. Tenho minhas dúvidas. Até parece que o ser humano sente satisfação em ver o sangue do seu próximo derramado. Talvez, por isso, os jornais tragam tantas notícias sensacionalistas, neste caso, os fins justificam os meios, ou melhor, a mídia. Se o motivo for despertar a sociedade, e revoltá-la diante das atrocidades, talvez seja compreensível, contudo, acreditamos que um outro mundo é possível. Por essa razão, desliguei também a TV, e guardei a revista. Estendi as mãos e peguei um exemplar do Novo Testamento que havia deixado no dia anterior sobre a escrivaninha.
Ao ler uma das Epístolas de Paulo, dei-me conta de que ali, nas páginas daquele texto tão antigo, havia notícias extremamente atuais. Por um momento me perguntei: por que será que essa mensagem não está nas primeiras páginas dos jornais? Será que essa não seria uma notícia que merecesse uma manchete de destaque no noticiário? O texto falava da realidade do pecado, dizia que todos os seres humanos se encontravam distanciados de Deus. Que, por conseguinte, sem Deus, estamos longe da razão para a qual fomos criados, do sentido real da existência humana. Mas essa não é uma notícia agradável, o melhor vem depois, entendi que o amor de Deus é incondicional e que se concretizou no ato de se fazer ser humano e vir à terra morrer pelos seres humanos.
Que mensagem graciosa: Deus nos ama e não há o que possamos fazer para sermos mais ou menos amado por Ele. Ele não faz exigências, apenas requer que creiamos no sacrifício vicário de Jesus Cristo. É pela graça, por meio da fé, não vem pelas obras para que ninguém se glorie. Que maravilhoso! A graça de Deus se manifestou trazendo salvação aos seres humanos. Em 1969, quando a nave Apolo pousou o solo lunar, os jornalistas de várias partes do mundo noticiaram que o maior evento de todos os tempos havia acabado de acontecer. O homem havia posto os seus pés na lua. Mas Billy Graham, célebre pregador, tratou logo de corrigir a notícia. Quando foi entrevistado, disse que aquele o maior evento histórico de todos os tempos não havia sido o homem ter posto seus pés na lua, mas Deus ter vindo à terra. Acho que a isso os autores bíblicos denominam de “evangelho”, literalmente, boa notícia.
Tenho consciência dos muitos problemas sociais que enfrentamos e do descaso das políticas públicas em relação à violência. A raiz dessa celeuma vai além do que aparenta. A imprensa é apenas a ponta do iceberg submerso. Mas como ela não é ideologicamente neutra, e muito menos imparcial, estará sempre divulgando notícias que vendam, que seja do interesse dos seus leitores. Como cristão, sem querer causar efeito de objetividade e imparcialidade, proponho uma revolução amorosa nos noticiários. Ainda que apenas por alguns dias, se divulgue, ao invés dos crimes e mortes hediondos, se noticie o ato de amor de alguém que se desprendeu de parte de suas riquezas em favor dos pobres. Que se mostre, ao invés dos atentados terroristas no oriente, a amizade caridosa entre um judeu e um palestino.
Se isso não for o bastante, que se fale a respeito da ética do amor de Cristo, da tolerância pelas diferenças, da cultura do afeto. Que se diga o quanto Deus nos ama e que O provou enviando Seu único filho, Jesus Cristo, para morrer pelos nossos pecados, também para ser um exemplo, na vida e na morte, de perdão e sacrifício. E quem sabe, envolvidos por uma onda contagiante de boas notícias, a violência dê lugar ao amor, o preconceito ao respeito, a morte à vida. Entraremos num círculo virtuoso de notícias alvissareiras. Não se falará em outra coisa a não ser na última boa ação que alguém acabou de fazer. Por um momento, fecho os olhos, e em um minuto de desvario, parece que ouço um jovem a gritar pelas principais ruas da cidade: “Extra! Extra! Mais um caso de amor e desprendimento”. E, quem sabe, chegaria o dia em que isso seria tão normal que viveríamos em paz, e seríamos escandalizados com algum caso de violência, caso viesse a existir. Bem, você pode até dizer que eu sou um sonhador, mas pelo menos, não sou ou não fui o único.

5 de mar de 2007

Cristo, o modelo a ser imitado

Temos uma tendência natural à imitação. Deus nos fez assim, susceptíveis às influências dos outros. Por isso, estamos sempre buscando alguém que consideremos ser digno de ser imitado. A mídia, mais especificamente, a propaganda, se aproveita com muita propriedade dessa propensão humana. Não ansiamos por ser qualquer um, sob a influência da mídia, desejamos ser aquele ricaço que anda num carro zero, rodeado por mulheres bonitas com seus corpos esculturais, resultantes de horas a fio de malhação e de inúmeras cirurgias plásticas. Esses são os modelos que nutrem o imaginário dos jovens, rapazes e moças, que os distancia de uma realidade que, provavelmente, não conseguirão atingir, e que os fará se sentirem infelizes e incompetentes.
Ao testemunhar essa realidade, volto no tempo, há algum tempo, quando tinha apenas dezesseis anos. Ganhei de presente um livro intitulado Heróis da Fé, da autoria de Orlando Boyer. Para quem não sabe, este foi um missionário que dedicou sua vida inteira à pregação do evangelho de Cristo em sertão nordestino. Em seu livro, Boyer, numa química de concisão e paixão, consegue apresentar, com maestria, a biografia de alguns homens e mulheres que nos servem de exemplo na caminhada cristã. Entre eles estão: Savanarola, Lutero, Edwards, Spurgeon, Wesley, entre outros. Ao ler cada uma daquelas biografias, sentia o desejo de imitar cada um daqueles personagens, construtores da história de Deus, e, em alguns momentos, fui levado às lágrimas.
A banalização do ser em detrimento do ter, infelizmente, tem levado a juventude a perder o foco nos modelos que sejam dignos de imitação. Mesmo entre os evangélicos, é provável que muitos saibam quem é Bill Gates, mas nunca tenham ouvido falar de homens como Billy Graham ou Bernard Johnson. Os modelos cristãos ainda existem, contudo, não há mais o mesmo interesse por eles como dantes. O modus vivendi da sociedade pós-moderna destoa do padrão divino para o qual fomos criados. Os jovens são alimentados, diariamente, por uma enxurrada de valores deturpados, e, alguns deles, embriagados pela propaganda televisiva que enaltece suas “celebridades” e leva a juventude à devassidão e à criminalidade.
Se for demais pedir que os jovens conheçam a biografia de Suzana Wesley e Dwight Moody, é inconcebível que sejam pouco afeitos aos personagens bíblicos. Para não ir muito longe, fiquemos, a título de provocação, com a exortação de Paulo, o qual, em seus escritos, nos convida a sermos imitadores dele, já que se considerava um imitador do próprio Cristo. Não que Paulo fosse perfeito, mas o amor que tinha pelo Mestre fazia com que esquecesse das coisas que para trás ficavam em busca de ser moldado ao caráter daquele que deve ser o modelo-padrão de todo cristão. É empolgante ler o livro de Atos dos Apóstolos e as epístolas paulinas sem se deixar contagiar pela paixão que o Apóstolo dos Gentios tinha por Jesus.
Na verdade, Jesus é o modelo que Deus deixou para que fosse seguido por todos nós. Jesus é a encarnação da divindade, mas que, como homem, nos inspira a uma vida de santificação em amor. O mestre de Nazaré diz a todos, vinde a mim todos vós, como estais, mas se nega a deixar-nos como estamos. Ele quer que, a cada dia, pareçamos mais com Ele, desenvolvamos o Seu caráter, mas não por nós mesmos, mas através de um caminhar no Espírito que nos leva a produzir o amor. Essa é uma atitude que, sem sombra de dúvida, leva a impopularidade. Acho pouco provável que Jesus tivesse a mídia a seu favor se pisasse na terra nos dias atuais. Digo isso porque no imaginário humano moldado pelo egocentrismo, a figura de Jesus se aproxima mais da de um louco. Quem teria a coragem de se sacrificar e entregar sua vida para morrer no lugar dos outros? Quem optaria por viver entre os pecadores, necessitados da graça de Deus, ao invés de estar entre aqueles que se julgam melhores auto-suficientes? Quem estaria disposto a abrir mão da vingança, agraciando seus inimigos com a dádiva do perdão? Quem estaria disposto a perder o mundo inteiro a fim de preservar a sua alma? Mesmo que essa proposta cristã fuja aos padrões tomados como logicamente aceitos, nós, os cristãos, não temos motivos para nos envergonhar do evangelho paradoxal de Cristo, no confronto com os valores da sociedade contemporânea. Afinal, como bem ressalta o Apóstolo, a mensagem da cruz é loucura para os que se perdem, contudo, para os salvos, é o poder de Deus.
A imitação de Cristo rendeu o título de um livro, escrito há bastante tempo por um cristão denominado Tomas de Kempis (1380-1471). Como provocação, concluo apontado algumas declarações contundente extraídas desse precioso opúsculo: 1) “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade (Ec. 1.2), exceto amar a Deus e só a Ele servir”; 2) “Procura, pois, desviar teu coração das coisas visíveis e transporta-lo às invisíveis; 3) “Não te envaideças, pois, de qualquer arte ou ciência; antes, teme pelos conhecimentos que adquiristes”; 4) “Ter-se por nada e pensar sempre bem e favoravelmente dos outros é prova de grande sabedoria e perfeição”; e 5) “Todos somos fracos, mas não tenhas a ninguém por mais fraco do que tu”. Essas são algumas sábias declarações para todos aqueles que buscam um modelo para imitar e querem, de fato, serem imitadores de Cristo, o modelo que realmente vale a pena ser imitado.

2 de fev de 2007

A um jovem universitário

Não posso esquecer de sua alegria no dia em que ouviu seu nome ser anunciado na listagem dos aprovados no vestibular. Seus colegas vibraram, seus familiares se orgulharam de você. À noite, no culto, você pediu oportunidade para agradecer a benção alcançada. A igreja também jubilou com o seu bom êxito. Os dias seguintes foram de extrema expectativa até chegar o primeiro dia de aula na universidade.
O tempo foi passando, e, aos poucos, sua ausência começou a ser sentida nos bancos da igreja. Suas aulas noturnas começaram a servir de justificativa para você não mais ir aos cultos. Nos finais de semana você dizia não poder ir à igreja devido ao acúmulo dos trabalhos acadêmicos. Você não tinha coragem de reconhecer, mas, na verdade, a igreja perdera, para você, o brilho de outrora. Os hinos já não tocavam mais seu coração. As pregações passaram a ser enfadonhas.
Paulatinamente, você deixou de citar as Escrituras como regra de fé e prática. Devido a influência dos professores materialistas, Marx e Foucault se tornaram seus autores preferidos. A religião, nas suas discussões, tornou-se “o ópio do povo”. A doutrina cristã, na ordem do discurso, ficou restrita à “vontade de verdade”. A confusão dominou sua mente. A fé que você abraçou praticamente esfriou.
Temos sentido sua falta no seio da igreja. Por isso, atrevo-me a escrever-te essas mal traçadas linhas. Não que me considere um sabichão ou coisa que o valha. Ouso fazê-lo a partir da experiência que tive como universitário, e, ainda hoje, envolvido com a docência nesse contexto. Também passei pelas mesmas inquietações com as quais você convive atualmente.
Quando cheguei à universidade, não me contaram que a academia ainda recebe forte influência do pensamento moderno. Resultante de tal abordagem, o humanismo secular põe o homem como a medida de todas as coisas. O ser humano, e não Deus, precisa tomar as rédeas da história. Esse ponto de vista pode bem ser resumido na letra da música “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.
Não pense, meu caro, que estou querendo levá-lo ao outro extremo. Acredito que somos construtores da história, mas que ela precisa ser feita com Aquele que dela é Senhor. O conhecimento e a tecnologia, por si sós, são incapazes de levar o homem à felicidade. Consoante às contribuições filosóficas do próprio Foucault, ouso afirmar que muito do que se escuta na universidade é resultante de uma cosmovisão sócio-historicamente construída.
Por isso, seja mais crítico em relação a tudo que você ouve e lê. Saiba que existe um caminho, como diz Paulo, sobremodo excelente. O amor é a saída para uma humanidade decaída e distanciada de Deus. Não há razões para nos envergonharmos do evangelho. Ele é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que tem fé. Portanto, não dispense a reflexão de cunho bíblico. Não leia apenas os livros e textos que se opõem à doutrina cristã. Não podemos negar a importância da leitura dos textos dos grandes pensadores. Deixar de conhecê-los também seria incitar à ignorância.
Busque o equilíbrio de modo a fundamentar sua fé cristã. Recomendo começar por Agostinho de Hipona. “Confissões” é um clássico da filosofia patrística. Todo ele escrito em forma de oração. Kierkegaard, enquanto filósofo cristão, também escreveu textos interessantes a respeito da fé. A título de sugestão, seria interessante você ler, desse autor, "O desespero humano". Se você gosta de literatura - acho que todo universitário deveria gostar – delicie-se em Dostoivesky. Se você nunca leu um livro desse autor, comece por Crime e Castigo. Veja como o autor trabalha a questão da culpa e da redenção ao longo da obra.
Por fim, mas não por último, não deixe de ler C. S. Lewis, ex-professor de literatura renacentista em Oxford. As Crônicas de Nárnia é uma coleção juvenil, mas que atrai também aos adultos. Os livros de “Jack”, como era chamado pelos amigos, estão repletos de analogia à fé cristã. Além dos livros de literatura, ele também escreveu ensaios teológicos. Um dos melhores, recentemente republicado em português, é “Cristianismo Puro e Simples”.
Finalmente, não se aparte da leitura da Bíblia. Os livros que sugeri o ajudarão bastante no fortalecimento de sua fé. Mas a fé propriamente dita, depende de ouvir a Palavra de Deus. Os autores anteriormente citados buscaram, na Palavra, a inspiração para os seus escritos. A reflexão acadêmica nos incentiva à criticidade, e esta, de fato, é condição necessária ao pensamento acadêmico. Contudo, diante da Palavra, a leia com amor, examine-a com cuidado, leve em conta os aspectos contextuais, relacione escritura com escritura, e, após seguir esses procedimentos, submeta-se à voz do Espírito. Não despreze a oração, a Palavra de Deus é um tesouro que nos torna sábios para a vida.
Como o disse anteriormente, não pretendo querer ser melhor do que você. Não pense sequer que tenho a pretensão de julga-lo pelo seu modo de pensar. O objetivo dessa missiva é repassar, a partir da experiência particular, o afeto que tenho por tua vida. Saiba que estarei orando sempre por você, e, quem sabe, dentro em breve, nos encontraremos no seio da ekklesía, onde, certamente, partilharemos, pessoalmente, das ricas bênçãos de Aba. Afinal, não se pode ser cristão sozinho. Nenhum homem é uma ilha, já dizia o célebre poeta inglês John Donne.
Talvez você não encontre, na ekklesía, pensadores do quilate de muitas pessoas que você aprendeu a admirar ultimamente. Mas certamente, encontrará, em meio às pessoas simples, alguns que se deleitam em estar ao teu lado e desfrutar de sua companhia. É provável que a música não se compare a uma sonata de Mozart, contudo, mesmo os parcos acordes dos hinos, podem ser valiosos se refletirem uma adoração em espírito e em verdade. A mensagem, talvez, não tenha todo o rigor científico das academias, mas é possível que, a partir da exposição bíblica, você seja surpreendido, como Samuel, pela voz do Deus que fala.
Deixo um saudoso abraço cristão, amado, e votos de que você continue na busca incessante pelo conhecimento. Leia tudo, examine com critérios, e, conforme sugeriu o Apóstolo, retenha o que for bom. Não esqueça de levar cativo todo pensamento a Cristo. Nunca olvide Aquele que é o Autor e Consumador da nossa fé. Para terminar, peço que medite na letra de um hino do grupo Logos que, de certo modo, resume bem o que tenho tentado expor ao longo dessas linhas: “quero ter conteúdo, sabendo de tudo, em volta de mim, mas nunca trocando, a viva Palavra, pelo que eu achava ou deixe de achar”. Um forte abraço cristão.