23 de dez de 2006

Quem tem medo de teologia?

Relutei bastante até me tornar aluno de um curso de teologia. Como a maioria dos cristãos pentecostais, acreditava que simplesmente lendo a Bíblia e outros livros que dispunha, seria o suficiente. Quando colegas da igreja me convidavam para estudar teologia, achava que aquilo não passava de tempo perdido, academicismo, que acabaria me direcionando ao intelectualismo, e, por fim, à frieza espiritual.Era algo paradoxal, um contra-senso, como alguém que era aluno universitário poderia se opor ao estudo teológico? Isso mudou depois de uma seqüência de cultos de formatura, para os quais fui convidado para ministrar como pregador oficial. O pastor, antes de me passar o microfone para a exposição bíblica, me apresentou como aluno da graduação, e por engano, como seminarista teológico.Eu não quis contrariá-lo, por isso, nada disse. No ano seguinte, a apresentação se repetiu. Tudo teria ficado como antes, se o pastor não tivesse resolvido me indagar a respeito de quando concluiria o curso teológico. Envergonhado respondi que sequer havia iniciado. Inquieto com o mal-entendido, ele me incentivou a me matricular no curso. No intuito de amenizar o ocorrido, o fiz logo na semana seguinte.Esse episódio se deu no início dos anos de 1990. De lá para cá, aprendi a dar a devida relevância ao estudo bíblico-teológico. Tal empolgação me levou a buscar, depois da conclusão do curso básico, um bacharelado nessa área. Percebi, afinal, que nada havia de assustador na reflexão teológica. Na verdade, os momentos de estudo teológico, me oportunizaram a sistematização de determinados conhecimentos, os quais foram motivo de bons debates com colegas de sala de aula.Por que temer a teologia se nós, a todo momento, estamos com ela envolvidos? É um termo que pode, inclusive, ser inferido na Bíblia, em Jo. 1.1. Nessa passagem, o apóstolo amado fala tanto de Deus – theos – quanto da Palavra – Logos. Quando duas ou três pessoas se encontram, na igreja, para falar das coisas de Deus, estão fazendo teologia. Grosso modo, todo pensamento a respeito de Deus, já é teologia.Assim, se teologia é, literalmente, falar a respeito de Deus, todos nós, independentes de estarmos matriculados em curso teológico ou não, estamos fazendo teologia. A grande diferença é que existem teólogos sérios, aqueles que, de fato, se dedicam criteriosamente ao estudo da Palavra, e os descompromissados com a mensagem bíblica, acham que “a letra mata”, não percebendo que “letra”, no contexto bíblico desta passagem, se refere à Lei e não ao estudo bíblico, o qual é estimulado tanto por Jesus quanto por Paulo.Não são todos que podem se matricular e fazer um curso de teologia, mas aqueles que têm essa oportunidade não podem deixar de fazê-lo. Um curso regular consta de um livro didático, que, avaliado à luz da Bíblia, favorece a sistematicidade do estudo. Além disso, é possível discutir com os colegas de classe (e com o professor) a fim de socializar, confirmar ou corrigir determinados pontos de vista. A avaliação final serve para medir o desempenho ao longo do curso, e, também, insta ao aprofundamento dos assuntos estudados.O estudo teológico sério, ortodoxo e bíblico nada tem de prejudicial, muito pelo contrário, ele serve, e muito, à igreja de Cristo. Ele contribui para o amadurecimento dos cristãos. Jesus nos ensinou a amar a Deus com o entendimento, isso, inclui a reflexão bíblico-teológica. Na evangelização e no trabalho missionário, a teologia dá, ao mensageiro, o conhecimento para expor a verdade do evangelho aos pecadores. Na apologética, nos mune da formação necessária à defesa da fé que uma vez foi dada aos santos.É possível que alguém queira objetar, dizendo que o estudo bíblico-teológico nos leva à frieza espiritual. Ledo engano, pois Jesus nos ensinou que os adoradores que Deus busca o fazem não só em espírito, mas também em verdade. Como podemos adorar a Deus se não O conhecemos? Qualquer relacionamento profícuo depende, inevitavelmente, de conhecimento mútuo. Deus nós conhece, mas nós, podemos somente conhecê-lo a partir da revelação que Ele faz de si mesmo na Escritura.Então, se quisermos nos aproximar dEle, não podemos fugir do estudo bíblico. Somente no testemunho escriturístico temos a manifestação de graça maravilhosa revelada em Cristo. O estudo bíblico-teológico nos leva a orar com mais sabedoria, de acordo com Sua vontade, a conhecer melhor Aquele que nos amou e se entregou pelos nossos pecados, e essa é a vida eterna, a enfrentar os desafios da vida sem perder o foco no Autor e Consumador da nossa fé. Feita essa defesa em favor do estudo bíblico-teológico, não posso concluir essa reflexão conclamar aqueles que se iniciam nesse tipo de estudo a humildade, condição sine qua non ao bom teólogo. Conforme bem salientou Karl Barth, teólogo suíço do século XX, não há grandes teólogos, apenas pequenos. Alguém pode arvorar-se dizendo ser um grande jurista, biólogo, médico, mas jamais pode dizer que é um grande teólogo. Isso porque, quando se trata das coisas de Deus, somos dependentes do seu amor gracioso em se nos revelar. Não podemos nos aproximar de Deus, aquele que fala, sem a devida reverência e humildade. Ainda hoje, a todos aqueles que estudam a palavra, conclama, como o fez a Moisés, para que tirem as sandálias dos pés, pois pisam em solo sagrado. Deus ocultou as coisas aos sábios e entendidos e as revelou aos pequeninos, ou melhor, aqueles que, como Maria, se dobram aos pés do Mestre para ouvir aquilo que o Espírito tem a dizer às igrejas. Sem um espírito propenso à obediência e à glória de Deus, ai sim, todo estudo bíblico-teológico é vão.