16 de out de 2006

O preço do discipulado

Agora é moda ser evangélico nesse país. Todo mundo quer ser gospel. O crescimento das igrejas é algo vultoso. Por outro lado, tenho dúvidas se esse crescimento reflete um verdadeiro discipulado cristão. Refletir a respeito disso é importante porque Jesus no enviou não para encher igrejas, amontoar gente, aumentar o rol de membros do sistema computadorizado de controle pessoal da igreja. Na grande comissão, aos seus apóstolos, antes de subir ao céu, os orientou para que se integrassem à tarefa de “fazerem discípulos”. A missão da igreja, como embaixadora do reino de Deus na terra, é fazer discípulos para Cristo em todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Fazer discípulo, porém, não é fácil, talvez, por isso, muitos preferem a senda menos tortuosa. Antes de qualquer coisa, precisamos entender o que significa ser discípulo de Jesus. A palavra discípulo, na verdade, tem a ver com aprendizado, mas, em termos bíblicos, a salutar analisar o que disse Jesus em Mt. 16.24 “Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me”. Assim, para ser discípulo há um “se”, isto é, uma condição a ser cumprida, não é apenas uma opção sem qualquer preço. Não é um preço a ser pago para a salvação, já que pela graça somos salvos, por meio da fé. Essa condição é o preço da salvação, não para a salvação, é a prova do verdadeiro discipulado.
A caminhada do discípulo é “após Cristo”, não adiante dele. Por conseguinte, ser discípulo do Mestre significa não se colocar a frente dele. É um chamado à obediência, ouvindo sempre o que Ele diz em Sua palavra. Não pode haver discipulado sem obediência, e, ao mesmo tempo, não pode haver obediência sem amor. Aquele que me ama, disse Jesus, guarda os meus mandamentos. O jugo de Jesus é suave e o seu fardo é leve somente para aqueles que abraçaram o discipulado em amor. Para tantos outros, que fingem O seguir, é cansativo, maçante e desgastante. O discípulo verdadeiro não obedece para ser salvo, antes porque é salvo.
Isso não quer dizer que não será preciso tomar decisões de renúncia. Costumamos eleger Satanás e o mundo como nossos principais adversários. Contudo, ainda que eles possam influenciar a vida daqueles que fizeram sua opção por Cristo, ao que tudo indica, não são os grandes vilões da história do homem. O principal risco à fé cristã somos nós mesmos, nosso ego, a natureza humana decaída, o velho homem que tenta se impor sobre a natureza criada em Cristo. Esse velho Adão precisa ser constantemente renunciado para que Cristo viva em nós.
Renunciar é dizer não para nós mesmos, e isso, pode ser mais facilmente alcançado, quando o fruto do Espírito é desenvolvido no caráter cristão, produzindo o amor. Assim, em contato com o Espírito Santo, andando nEle, a cruz do discipulado que precisamos carregar torna-se mais suave e leve. Nos tempos antigos, quando alguém passava pelas ruas de Jerusalém, conduzindo uma cruz, os observadores tinha a firme convicção de que aquela pessoa estava caminhado para a morte. Como discípulos, estamos mortos para o mundo, e isso tem relação direta com o símbolo do batismo. No batismo, damos testemunho da morte do velho “eu”, nos tornamos nova criaturas, as coisas velhas passaram, tudo se faz novo.
Enquanto carregamos a cruz, devamos estar lembrados de que adiante de nós, segue Aquele que nos deu o exemplo de amor, renúncia e sacrifício. Esses, na verdade, são componentes essenciais do cristão, o sofrimento faz parte do discipulado. Estejamos, pois, sempre olhando para Ele, autor e consumador da nossa salvação, sigamos, pois, em busca do alvo, do prêmio da soberana vocação que está em Cristo Jesus, deixando para trás todo o embaraço que tão de perto nos assedia. A palavra final para o discípulo é: siga-me. O verbo, no grego, está em uma qualidade de ação contínua, dando idéia de constância, o que nos leva a atentar para a importância da persistência no discipulado. O discípulo de Cristo não se fia nas glórias do seu passado, muito menos nos longos anos de filiação eclesiástica, mas na experiência continuada aos pés do Mestre, ouvindo, como Maria, com espanto, Suas palavras de amor e de vida eterna.