17 de set de 2006

Sem medo de viver

Vivemos cercados pela cultura do medo, que, alimentado pela insegurança pública e promovido pelos meios sensacionalistas de comunicação de massa, acaba por produzir lucros vultosos para as empresas de segurança. Há um verdadeiro circulo vicioso que acaba nos levando a um sentimento ansioso de pânico, angústia e desespero. Muitas pessoas chegam mesmo a ficarem paralisadas por causa do pavor, das fobias. Não que o medo seja um mal em si mesmo, afinal, todos dependemos dele para a sobrevivência, é uma dádiva de Deus para a preservação do indivíduo.
O problema é quando esse medo se transforma em algo descontrolado que leva ao desespero. O homem é um ser finito, limitado, inacabado. No livro de Gênesis, após o pecado, Adão percebeu sua condição e teve medo: “Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me.” (Gn. 3.10). A causa do medo, de acordo com o relato bíblico, é a forma como nos vemos pelos olhos dos outros, é o receio de como Deus nos verá. Por isso, estamos sempre tentando nos cobrir com folhas de figueira, na inútil tentativa de camuflar aquilo que realmente somos.
Tentamos ocultar nossa limitação e finitude recorrendo a objetos materiais, coisas que compensem nossa irrealização. Criamos uma sociedade pautada no sucesso e na prosperidade onde as pessoas se cobram mutuamente. Ninguém quer ficar para trás, todos querem tirar alguma vantagem. Ficamos assustados somente em imaginar que alguém irá nos julgar pelo que não temos, um imóvel suntuoso para residir, um veículo possante do ano para expor, uma roupa de marca para vestir. Temos medo dos outros, parafraseando Sartre, os outros acabam se tornando nosso inferno. Mas, na verdade, o que assusta não são os outros, mas nós mesmos, aquilo que somos capazes de fazer para fugir da realidade na qual nos encontramos.
Davi sentiu na pele esse tipo de pavor e orou: “O meu coração está dolorido dentro de mim, e terrores da morte caíram sobre mim. Temor e tremor vieram sobre mim; e o horror me cobriu. Assim eu disse: Oh! quem me dera asas como de pomba! Então voaria, e estaria em descanso” (Sl. 55.4-6). Em sua oração, Davi sabe que o pavor está “dentro dele”. Nos enganamos quando pensamos que o medo está do lado de fora. Precisamos olhar, inicialmente, para dentro de nós mesmos, para, depois, olhar para cima, e, só então, passaremos a ver o mundo de modo diferente. Quando isso tiver acontecido, ao invés de nos assustar-nos com o tamanho dos gigantes, como fizeram os israelitas (Nm.13.31-33), centralizaremos a atenção em Deus, como fez Calebe. Não podemos esquecer que Ele é a fonte de descanso (Nm. 14.24; Hb. 11.6), sem Ele, o medo acabará por destruir nossa fé e a certeza de que Ele estará do nosso lado, nos momentos mais difíceis (Sl. 56.3-4; Rm. 8.31,32).
Após refletir sobre o grande amor de Deus, o salmista afirmou com veemência: “o Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? O Senhor é a força da minha vida; de quem me recearei?” (Sl. 27.1), e, mais adiante, “O Senhor está comigo; não temerei o que me pode fazer o homem” (Sl. 118.6). O principal problema do medo é que ele nos fecha diante dos outros. Ele destrói a razão para a qual fomos criados, para ter relacionamentos, tanto com Deus quanto com o próximo. Quando nos entregamos ao medo, somos impulsionados a fugir de Deus e das pessoas. Tornamos-nos construtores de muros ao invés de edificadores de pontes. Venceremos o medo quando formos capazes de vencer a nós mesmos. A principal ameaça para nós é o nosso próprio egoísmo.
Na passagem bíblica de I Jo. 4.18, apóstolo Amado, aquele que esteve por longo tempo preso na ilha de Patmos, nos mostra a saída para o medo, diz ele: “No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor”. Em relação a Deus, é necessário, primeiramente, ter a convicção do seu imenso amor em Cristo, o qual morreu e ressuscitou para que tivéssemos vida e não mais temêssemos. O ser humano não precisa mais se esconder nas “folhas de figueira” da religiosidade, pois, em Cristo, o temor foi substituído pelo amor. Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Em relação aos outros, devemos tomar a decisão de pôr o amor acima de qualquer pavor. Esse é o caminho para nos abrirmos aos relacionamentos. Se tivermos que ter medo de alguma coisa, deve ser o medo de não amar, pois se não amarmos, verdadeiramente, não conseguiremos viver, já que não há vida sem amor. Chega de pavor, somente o amor salvará o mundo.