14 de mai de 2006

A Palavra e as imagens


A sociedade tecnológica atual fez a sua opção pelas imagens. Não apenas algumas igrejas, mas a sociedade como um todo. Isso pode ser efetivamente testemunhado no total de horas que as pessoas passam diante dos seus televisores. A imagem assumiu o centro da sociedade contemporânea e isso aconteceu na medida em que a palavra foi relegada a segundo plano. Muito embora, a tentação pelo que se vê em detrimento do que se ouve não é de hoje. Adão e Eva, quando postos no Éden, resolveram, ao invés de dar ouvidos à Palavra de Deus, deixaram-se seduzir pelo desejo daquilo que os olhos podiam ver associados à mensagem reducionista do Inimigo.
O povo de Israel, quando Moisés acampou com o povo nas imediações do Sinai, e subiu ao Monte para receber a Lei de Deus, não resistiu à demora do seu líder e resolveu construir um bezerro de ouro para ser visto e adorado. Interessante que a adoração humana está sempre voltada para aquilo que se pode tocar. A mulher samaritana indagou a Jesus: onde devemos adorar? No monte ou no templo? Jesus respondeu: os adoradores que Deus busca adoram-no em Espírito e em Verdade. Não existe adoração verdadeira distanciada da Verdade da Palavra e muito menos de um relacionamento Espírito, haja vista que Deus é Espírito. Por isso, a construção do bezerro de ouro foi um ato abominável perante Deus porque representava uma tentativa de objetificar Deus.
A adoração por meio de imagens é terminante proibida por Deus ao longo da Bíblia porque Ela lança o olhar dos seres humanos em uma direção totalmente oposta à revelação divina. Deus optou por revelar-se por meio da Palavra e não por imagens. A única vez em que a imagem e a Palavra estiveram juntas foi quando Cristo veio à terra, e isso há mais de dois mil anos. Antes e depois disso, como disse o Senhor a Tomé, somos desafiados a crer, não pelo que vemos, mas pelo que ouvimos. Fé, nesse sentido, não é crença no que vemos, mas antes o fundamento que nos trás esperança, eis o motivo de vivermos por fé e não por vista. Mas como ter um incremento na nossa fé? Se víssemos mais sinais teríamos mais fé, alguém pode pensar. Ledo engano, o povo de Israel viu muitos e maiores sinais do que nós, no entanto, murmuraram mais do que creram.
A fé não vem pelo ver, mas pelo ouvir. Mas ouvir o que? Ouvir a Palavra de Deus. Nossa liturgia cristã, obstante a sua oposição ao uso de imagens nos templos católicos, não deixa de, em muitas situações, supervalorizar o que se vê na medida em que desconsidera a exposição da Palavra de Deus. Se quisermos avaliar uma igreja que tenha compromisso com a fé genuinamente cristã, é só avaliar em que lugar encontra-se aquilo que se vê em relação com aquilo que se ouve. Não podemos desprezar a Palavra de Deus, pois assim fazendo, estamos deixando de dar glória Aquele que é a Palavra que se fez carne e habitou entre nós. Investir demasiadamente no que se vê e de menos no que se ouve em uma deturpação do evangelho de Deus e uma opção pela idolatria. Portanto, quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas.