1 de abr de 2006

Surpreendido pela Palavra

O que a Bíblia significa para você? Um livro volumoso, de capa preta, ocupando espaço em uma estante? Ou uma coletânea de regras e leis morais que devem ser memorizadas e observadas a fim de cumprir as exigências de Deus? Para os primeiros, a Bíblia não passa de mais um livro, como qualquer outro, ou, talvez, de menor valia. Há quem acredite que um livro de história, geografia ou matemática, tenha muito mais valor do que a Bíblia. Para os últimos, esse livro é um manual religioso que deve ser respeitado, e porque não dizer, adorado, como a Palavra de Deus.
Tenho refletido muito sobre essas posições atualmente. No princípio da minha fé, acreditava que a Bíblia, como livro de Deus, deveria ser tão exato como qualquer outro livro didático que eu acompanhava na escola. Por isso, passava horas à fio tentando mostrar para meus colegas e irmãos da igreja, como os posicionamentos da Bíblia antecipavam as descobertas científicas que eram propaladas pelas revistas, jornais e televisão. Quando carregava minha Bíblia por onde ia, algo que costumava fazer com muito maior freqüência antigamente, andava ciente de que estava portando não apenas um livro, mas toda a revelação de Deus.
Nesses últimos dias, tenho repensado alguns posicionamentos a esse respeito. Primeiramente, lendo o livro de Jó, percebi que “Eis que Deus é grande, e nós não o compreendemos, e o número dos seus anos não se pode esquadrinhar” (Jó. 36.26). Então, como pude supor que tudo que eu poderia conhecer a respeito de Deus se encontraria em um livro? Entendo, agora, que, verdadeiramente, “as coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei”. Portanto, existem coisas ocultas que o Senhor não as revelou e eu, como homem limitado que sou, preciso aprender a viver, ciente de Deus pôs o mistério no coração do homem, de modo que ele não pode descobrir o que Ele fez, desde o princípio até o fim (Ec. 3.11).
Deus, como diz o profeta Isaias, é um Deus que verdadeiramente se oculta (Is. 45.15), mas que, ao mesmo tempo, se decide por revelar-se. A revelação é um ato gracioso de Deus, haja vista que, por causa de nossos pecados, seríamos incapazes de ter algum conhecimento de Deus. Mesmo assim, Ele, sendo um Deus que fala, tomou uma das decisões mais radicais que se possa imaginar. Ele mesmo, a Palavra, tornou-se carne e resolveu habitar no meio dos homens. João diz: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo. 1.14). Em Jesus temos a revelação maior de Deus. Nele, o falar de Deus – dabar em hebraico que significa também ação – pôs-se ao lado dos homens e num gesto amoroso e gracioso, resolveu morrer em lugar dos pecadores, revelando, assim, a mensagem glorioso do evangelho.
É a partir desse acontecimento que podemos, agora, ter acesso à revelação de Deus. É através de Cristo que podemos nos aproximar da Bíblia e, através daquelas palavras, tem um encontro pessoal com o Deus que se revela por meio delas. A Bíblia, nesse contexto, deixa de ser apenas um livro de história, geografia ou literatura e passa a ser aquilo que Deus propôs que ela fosse: “Escritura divinamente soprada por Deus” (II Tm. 3.16). Como tal, essa Escritura não pode ser vista como um livro qualquer, ela, como bem diz o apóstolo, ao ser soprada pelo Espírito de Deus, torna-se útil, não para tirarmos as nossas dúvidas cosmológicas, mas para alcançarmos a salvação em Cristo, nesse contexto, é que ela é “e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (v. 17). Assim é a Palavra de Deus, não posso jamais me assenhorear sobre ela, pois como revelação de Deus, o qual é Deus da Palavra, “é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração” (Hb. 4.12). Esse é o motivo pelo qual, quando lemos a Bíblia, buscando a Palavra de Deus, não podemos assumir outra postura, senão a de humildade, e, como Samuel, orar: “fala, porque o teu servo ouve.” (I Sm. 3.10).
Como Samuel, podemos ser tentados a pensar que o homem fala quando, na verdade, é Deus que fala através dele. A voz de Deus pode muito bem ser confundida com simples palavras humanas, foi como agiu Samuel ao confundir a Palavra de Deus com a de Eli. A Bíblia, por conseguinte, não é um grande livro porque tenha um nível literário que se sobressaia aos grandes escritores. Muito menos porque traga revelações científicas que jamais foram sonhadas pela ciência moderna. Não, a Bíblia, enquanto Palavra de Deus, é útil e eficaz porque testemunha da salvação, mas acima de qualquer coisa, porque trata de um mundo admirável que se acostumou a viver com base nos ditames do materialismo. Somos surpreendidos pela Palavra quando encontramos, naquele livro, a voz do evangelho de Cristo, que fala dEle e nos aponta para Ele.
Buscando Cristo, na Bíblia, podemos testemunhar, com Pedro, que essa Palavra “nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (II Pe. 1.21). Aprendamos, portanto, a ler a Bíblia com esse espírito de submissão, querendo ouvir a voz daquele que fala por meio dos homens, que, uma vez movidos pelo Espírito Santo, testemunharam daquEle que é a Palavra para sempre. Eles tinham um tesouro em vasos de barro, mas, mesmo assim, quando lemos a Escritura, debaixo do sopro do mesmo Espírito que soprou sobre eles, podemos ser impactados pela Palavra do Evangelho de Deus, que trás luz e vida aos corações desalentados. Ao Deus que graciosamente optou por falar aos homens, seja a honra e glória para todo o sempre.