23 de dez de 2006

Quem tem medo de teologia?

Relutei bastante até me tornar aluno de um curso de teologia. Como a maioria dos cristãos pentecostais, acreditava que simplesmente lendo a Bíblia e outros livros que dispunha, seria o suficiente. Quando colegas da igreja me convidavam para estudar teologia, achava que aquilo não passava de tempo perdido, academicismo, que acabaria me direcionando ao intelectualismo, e, por fim, à frieza espiritual.Era algo paradoxal, um contra-senso, como alguém que era aluno universitário poderia se opor ao estudo teológico? Isso mudou depois de uma seqüência de cultos de formatura, para os quais fui convidado para ministrar como pregador oficial. O pastor, antes de me passar o microfone para a exposição bíblica, me apresentou como aluno da graduação, e por engano, como seminarista teológico.Eu não quis contrariá-lo, por isso, nada disse. No ano seguinte, a apresentação se repetiu. Tudo teria ficado como antes, se o pastor não tivesse resolvido me indagar a respeito de quando concluiria o curso teológico. Envergonhado respondi que sequer havia iniciado. Inquieto com o mal-entendido, ele me incentivou a me matricular no curso. No intuito de amenizar o ocorrido, o fiz logo na semana seguinte.Esse episódio se deu no início dos anos de 1990. De lá para cá, aprendi a dar a devida relevância ao estudo bíblico-teológico. Tal empolgação me levou a buscar, depois da conclusão do curso básico, um bacharelado nessa área. Percebi, afinal, que nada havia de assustador na reflexão teológica. Na verdade, os momentos de estudo teológico, me oportunizaram a sistematização de determinados conhecimentos, os quais foram motivo de bons debates com colegas de sala de aula.Por que temer a teologia se nós, a todo momento, estamos com ela envolvidos? É um termo que pode, inclusive, ser inferido na Bíblia, em Jo. 1.1. Nessa passagem, o apóstolo amado fala tanto de Deus – theos – quanto da Palavra – Logos. Quando duas ou três pessoas se encontram, na igreja, para falar das coisas de Deus, estão fazendo teologia. Grosso modo, todo pensamento a respeito de Deus, já é teologia.Assim, se teologia é, literalmente, falar a respeito de Deus, todos nós, independentes de estarmos matriculados em curso teológico ou não, estamos fazendo teologia. A grande diferença é que existem teólogos sérios, aqueles que, de fato, se dedicam criteriosamente ao estudo da Palavra, e os descompromissados com a mensagem bíblica, acham que “a letra mata”, não percebendo que “letra”, no contexto bíblico desta passagem, se refere à Lei e não ao estudo bíblico, o qual é estimulado tanto por Jesus quanto por Paulo.Não são todos que podem se matricular e fazer um curso de teologia, mas aqueles que têm essa oportunidade não podem deixar de fazê-lo. Um curso regular consta de um livro didático, que, avaliado à luz da Bíblia, favorece a sistematicidade do estudo. Além disso, é possível discutir com os colegas de classe (e com o professor) a fim de socializar, confirmar ou corrigir determinados pontos de vista. A avaliação final serve para medir o desempenho ao longo do curso, e, também, insta ao aprofundamento dos assuntos estudados.O estudo teológico sério, ortodoxo e bíblico nada tem de prejudicial, muito pelo contrário, ele serve, e muito, à igreja de Cristo. Ele contribui para o amadurecimento dos cristãos. Jesus nos ensinou a amar a Deus com o entendimento, isso, inclui a reflexão bíblico-teológica. Na evangelização e no trabalho missionário, a teologia dá, ao mensageiro, o conhecimento para expor a verdade do evangelho aos pecadores. Na apologética, nos mune da formação necessária à defesa da fé que uma vez foi dada aos santos.É possível que alguém queira objetar, dizendo que o estudo bíblico-teológico nos leva à frieza espiritual. Ledo engano, pois Jesus nos ensinou que os adoradores que Deus busca o fazem não só em espírito, mas também em verdade. Como podemos adorar a Deus se não O conhecemos? Qualquer relacionamento profícuo depende, inevitavelmente, de conhecimento mútuo. Deus nós conhece, mas nós, podemos somente conhecê-lo a partir da revelação que Ele faz de si mesmo na Escritura.Então, se quisermos nos aproximar dEle, não podemos fugir do estudo bíblico. Somente no testemunho escriturístico temos a manifestação de graça maravilhosa revelada em Cristo. O estudo bíblico-teológico nos leva a orar com mais sabedoria, de acordo com Sua vontade, a conhecer melhor Aquele que nos amou e se entregou pelos nossos pecados, e essa é a vida eterna, a enfrentar os desafios da vida sem perder o foco no Autor e Consumador da nossa fé. Feita essa defesa em favor do estudo bíblico-teológico, não posso concluir essa reflexão conclamar aqueles que se iniciam nesse tipo de estudo a humildade, condição sine qua non ao bom teólogo. Conforme bem salientou Karl Barth, teólogo suíço do século XX, não há grandes teólogos, apenas pequenos. Alguém pode arvorar-se dizendo ser um grande jurista, biólogo, médico, mas jamais pode dizer que é um grande teólogo. Isso porque, quando se trata das coisas de Deus, somos dependentes do seu amor gracioso em se nos revelar. Não podemos nos aproximar de Deus, aquele que fala, sem a devida reverência e humildade. Ainda hoje, a todos aqueles que estudam a palavra, conclama, como o fez a Moisés, para que tirem as sandálias dos pés, pois pisam em solo sagrado. Deus ocultou as coisas aos sábios e entendidos e as revelou aos pequeninos, ou melhor, aqueles que, como Maria, se dobram aos pés do Mestre para ouvir aquilo que o Espírito tem a dizer às igrejas. Sem um espírito propenso à obediência e à glória de Deus, ai sim, todo estudo bíblico-teológico é vão.

16 de out de 2006

O preço do discipulado

Agora é moda ser evangélico nesse país. Todo mundo quer ser gospel. O crescimento das igrejas é algo vultoso. Por outro lado, tenho dúvidas se esse crescimento reflete um verdadeiro discipulado cristão. Refletir a respeito disso é importante porque Jesus no enviou não para encher igrejas, amontoar gente, aumentar o rol de membros do sistema computadorizado de controle pessoal da igreja. Na grande comissão, aos seus apóstolos, antes de subir ao céu, os orientou para que se integrassem à tarefa de “fazerem discípulos”. A missão da igreja, como embaixadora do reino de Deus na terra, é fazer discípulos para Cristo em todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Fazer discípulo, porém, não é fácil, talvez, por isso, muitos preferem a senda menos tortuosa. Antes de qualquer coisa, precisamos entender o que significa ser discípulo de Jesus. A palavra discípulo, na verdade, tem a ver com aprendizado, mas, em termos bíblicos, a salutar analisar o que disse Jesus em Mt. 16.24 “Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me”. Assim, para ser discípulo há um “se”, isto é, uma condição a ser cumprida, não é apenas uma opção sem qualquer preço. Não é um preço a ser pago para a salvação, já que pela graça somos salvos, por meio da fé. Essa condição é o preço da salvação, não para a salvação, é a prova do verdadeiro discipulado.
A caminhada do discípulo é “após Cristo”, não adiante dele. Por conseguinte, ser discípulo do Mestre significa não se colocar a frente dele. É um chamado à obediência, ouvindo sempre o que Ele diz em Sua palavra. Não pode haver discipulado sem obediência, e, ao mesmo tempo, não pode haver obediência sem amor. Aquele que me ama, disse Jesus, guarda os meus mandamentos. O jugo de Jesus é suave e o seu fardo é leve somente para aqueles que abraçaram o discipulado em amor. Para tantos outros, que fingem O seguir, é cansativo, maçante e desgastante. O discípulo verdadeiro não obedece para ser salvo, antes porque é salvo.
Isso não quer dizer que não será preciso tomar decisões de renúncia. Costumamos eleger Satanás e o mundo como nossos principais adversários. Contudo, ainda que eles possam influenciar a vida daqueles que fizeram sua opção por Cristo, ao que tudo indica, não são os grandes vilões da história do homem. O principal risco à fé cristã somos nós mesmos, nosso ego, a natureza humana decaída, o velho homem que tenta se impor sobre a natureza criada em Cristo. Esse velho Adão precisa ser constantemente renunciado para que Cristo viva em nós.
Renunciar é dizer não para nós mesmos, e isso, pode ser mais facilmente alcançado, quando o fruto do Espírito é desenvolvido no caráter cristão, produzindo o amor. Assim, em contato com o Espírito Santo, andando nEle, a cruz do discipulado que precisamos carregar torna-se mais suave e leve. Nos tempos antigos, quando alguém passava pelas ruas de Jerusalém, conduzindo uma cruz, os observadores tinha a firme convicção de que aquela pessoa estava caminhado para a morte. Como discípulos, estamos mortos para o mundo, e isso tem relação direta com o símbolo do batismo. No batismo, damos testemunho da morte do velho “eu”, nos tornamos nova criaturas, as coisas velhas passaram, tudo se faz novo.
Enquanto carregamos a cruz, devamos estar lembrados de que adiante de nós, segue Aquele que nos deu o exemplo de amor, renúncia e sacrifício. Esses, na verdade, são componentes essenciais do cristão, o sofrimento faz parte do discipulado. Estejamos, pois, sempre olhando para Ele, autor e consumador da nossa salvação, sigamos, pois, em busca do alvo, do prêmio da soberana vocação que está em Cristo Jesus, deixando para trás todo o embaraço que tão de perto nos assedia. A palavra final para o discípulo é: siga-me. O verbo, no grego, está em uma qualidade de ação contínua, dando idéia de constância, o que nos leva a atentar para a importância da persistência no discipulado. O discípulo de Cristo não se fia nas glórias do seu passado, muito menos nos longos anos de filiação eclesiástica, mas na experiência continuada aos pés do Mestre, ouvindo, como Maria, com espanto, Suas palavras de amor e de vida eterna.

17 de set de 2006

Sem medo de viver

Vivemos cercados pela cultura do medo, que, alimentado pela insegurança pública e promovido pelos meios sensacionalistas de comunicação de massa, acaba por produzir lucros vultosos para as empresas de segurança. Há um verdadeiro circulo vicioso que acaba nos levando a um sentimento ansioso de pânico, angústia e desespero. Muitas pessoas chegam mesmo a ficarem paralisadas por causa do pavor, das fobias. Não que o medo seja um mal em si mesmo, afinal, todos dependemos dele para a sobrevivência, é uma dádiva de Deus para a preservação do indivíduo.
O problema é quando esse medo se transforma em algo descontrolado que leva ao desespero. O homem é um ser finito, limitado, inacabado. No livro de Gênesis, após o pecado, Adão percebeu sua condição e teve medo: “Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me.” (Gn. 3.10). A causa do medo, de acordo com o relato bíblico, é a forma como nos vemos pelos olhos dos outros, é o receio de como Deus nos verá. Por isso, estamos sempre tentando nos cobrir com folhas de figueira, na inútil tentativa de camuflar aquilo que realmente somos.
Tentamos ocultar nossa limitação e finitude recorrendo a objetos materiais, coisas que compensem nossa irrealização. Criamos uma sociedade pautada no sucesso e na prosperidade onde as pessoas se cobram mutuamente. Ninguém quer ficar para trás, todos querem tirar alguma vantagem. Ficamos assustados somente em imaginar que alguém irá nos julgar pelo que não temos, um imóvel suntuoso para residir, um veículo possante do ano para expor, uma roupa de marca para vestir. Temos medo dos outros, parafraseando Sartre, os outros acabam se tornando nosso inferno. Mas, na verdade, o que assusta não são os outros, mas nós mesmos, aquilo que somos capazes de fazer para fugir da realidade na qual nos encontramos.
Davi sentiu na pele esse tipo de pavor e orou: “O meu coração está dolorido dentro de mim, e terrores da morte caíram sobre mim. Temor e tremor vieram sobre mim; e o horror me cobriu. Assim eu disse: Oh! quem me dera asas como de pomba! Então voaria, e estaria em descanso” (Sl. 55.4-6). Em sua oração, Davi sabe que o pavor está “dentro dele”. Nos enganamos quando pensamos que o medo está do lado de fora. Precisamos olhar, inicialmente, para dentro de nós mesmos, para, depois, olhar para cima, e, só então, passaremos a ver o mundo de modo diferente. Quando isso tiver acontecido, ao invés de nos assustar-nos com o tamanho dos gigantes, como fizeram os israelitas (Nm.13.31-33), centralizaremos a atenção em Deus, como fez Calebe. Não podemos esquecer que Ele é a fonte de descanso (Nm. 14.24; Hb. 11.6), sem Ele, o medo acabará por destruir nossa fé e a certeza de que Ele estará do nosso lado, nos momentos mais difíceis (Sl. 56.3-4; Rm. 8.31,32).
Após refletir sobre o grande amor de Deus, o salmista afirmou com veemência: “o Senhor é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei? O Senhor é a força da minha vida; de quem me recearei?” (Sl. 27.1), e, mais adiante, “O Senhor está comigo; não temerei o que me pode fazer o homem” (Sl. 118.6). O principal problema do medo é que ele nos fecha diante dos outros. Ele destrói a razão para a qual fomos criados, para ter relacionamentos, tanto com Deus quanto com o próximo. Quando nos entregamos ao medo, somos impulsionados a fugir de Deus e das pessoas. Tornamos-nos construtores de muros ao invés de edificadores de pontes. Venceremos o medo quando formos capazes de vencer a nós mesmos. A principal ameaça para nós é o nosso próprio egoísmo.
Na passagem bíblica de I Jo. 4.18, apóstolo Amado, aquele que esteve por longo tempo preso na ilha de Patmos, nos mostra a saída para o medo, diz ele: “No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor”. Em relação a Deus, é necessário, primeiramente, ter a convicção do seu imenso amor em Cristo, o qual morreu e ressuscitou para que tivéssemos vida e não mais temêssemos. O ser humano não precisa mais se esconder nas “folhas de figueira” da religiosidade, pois, em Cristo, o temor foi substituído pelo amor. Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Em relação aos outros, devemos tomar a decisão de pôr o amor acima de qualquer pavor. Esse é o caminho para nos abrirmos aos relacionamentos. Se tivermos que ter medo de alguma coisa, deve ser o medo de não amar, pois se não amarmos, verdadeiramente, não conseguiremos viver, já que não há vida sem amor. Chega de pavor, somente o amor salvará o mundo.

14 de mai de 2006

A Palavra e as imagens


A sociedade tecnológica atual fez a sua opção pelas imagens. Não apenas algumas igrejas, mas a sociedade como um todo. Isso pode ser efetivamente testemunhado no total de horas que as pessoas passam diante dos seus televisores. A imagem assumiu o centro da sociedade contemporânea e isso aconteceu na medida em que a palavra foi relegada a segundo plano. Muito embora, a tentação pelo que se vê em detrimento do que se ouve não é de hoje. Adão e Eva, quando postos no Éden, resolveram, ao invés de dar ouvidos à Palavra de Deus, deixaram-se seduzir pelo desejo daquilo que os olhos podiam ver associados à mensagem reducionista do Inimigo.
O povo de Israel, quando Moisés acampou com o povo nas imediações do Sinai, e subiu ao Monte para receber a Lei de Deus, não resistiu à demora do seu líder e resolveu construir um bezerro de ouro para ser visto e adorado. Interessante que a adoração humana está sempre voltada para aquilo que se pode tocar. A mulher samaritana indagou a Jesus: onde devemos adorar? No monte ou no templo? Jesus respondeu: os adoradores que Deus busca adoram-no em Espírito e em Verdade. Não existe adoração verdadeira distanciada da Verdade da Palavra e muito menos de um relacionamento Espírito, haja vista que Deus é Espírito. Por isso, a construção do bezerro de ouro foi um ato abominável perante Deus porque representava uma tentativa de objetificar Deus.
A adoração por meio de imagens é terminante proibida por Deus ao longo da Bíblia porque Ela lança o olhar dos seres humanos em uma direção totalmente oposta à revelação divina. Deus optou por revelar-se por meio da Palavra e não por imagens. A única vez em que a imagem e a Palavra estiveram juntas foi quando Cristo veio à terra, e isso há mais de dois mil anos. Antes e depois disso, como disse o Senhor a Tomé, somos desafiados a crer, não pelo que vemos, mas pelo que ouvimos. Fé, nesse sentido, não é crença no que vemos, mas antes o fundamento que nos trás esperança, eis o motivo de vivermos por fé e não por vista. Mas como ter um incremento na nossa fé? Se víssemos mais sinais teríamos mais fé, alguém pode pensar. Ledo engano, o povo de Israel viu muitos e maiores sinais do que nós, no entanto, murmuraram mais do que creram.
A fé não vem pelo ver, mas pelo ouvir. Mas ouvir o que? Ouvir a Palavra de Deus. Nossa liturgia cristã, obstante a sua oposição ao uso de imagens nos templos católicos, não deixa de, em muitas situações, supervalorizar o que se vê na medida em que desconsidera a exposição da Palavra de Deus. Se quisermos avaliar uma igreja que tenha compromisso com a fé genuinamente cristã, é só avaliar em que lugar encontra-se aquilo que se vê em relação com aquilo que se ouve. Não podemos desprezar a Palavra de Deus, pois assim fazendo, estamos deixando de dar glória Aquele que é a Palavra que se fez carne e habitou entre nós. Investir demasiadamente no que se vê e de menos no que se ouve em uma deturpação do evangelho de Deus e uma opção pela idolatria. Portanto, quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas.

1 de abr de 2006

Surpreendido pela Palavra

O que a Bíblia significa para você? Um livro volumoso, de capa preta, ocupando espaço em uma estante? Ou uma coletânea de regras e leis morais que devem ser memorizadas e observadas a fim de cumprir as exigências de Deus? Para os primeiros, a Bíblia não passa de mais um livro, como qualquer outro, ou, talvez, de menor valia. Há quem acredite que um livro de história, geografia ou matemática, tenha muito mais valor do que a Bíblia. Para os últimos, esse livro é um manual religioso que deve ser respeitado, e porque não dizer, adorado, como a Palavra de Deus.
Tenho refletido muito sobre essas posições atualmente. No princípio da minha fé, acreditava que a Bíblia, como livro de Deus, deveria ser tão exato como qualquer outro livro didático que eu acompanhava na escola. Por isso, passava horas à fio tentando mostrar para meus colegas e irmãos da igreja, como os posicionamentos da Bíblia antecipavam as descobertas científicas que eram propaladas pelas revistas, jornais e televisão. Quando carregava minha Bíblia por onde ia, algo que costumava fazer com muito maior freqüência antigamente, andava ciente de que estava portando não apenas um livro, mas toda a revelação de Deus.
Nesses últimos dias, tenho repensado alguns posicionamentos a esse respeito. Primeiramente, lendo o livro de Jó, percebi que “Eis que Deus é grande, e nós não o compreendemos, e o número dos seus anos não se pode esquadrinhar” (Jó. 36.26). Então, como pude supor que tudo que eu poderia conhecer a respeito de Deus se encontraria em um livro? Entendo, agora, que, verdadeiramente, “as coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei”. Portanto, existem coisas ocultas que o Senhor não as revelou e eu, como homem limitado que sou, preciso aprender a viver, ciente de Deus pôs o mistério no coração do homem, de modo que ele não pode descobrir o que Ele fez, desde o princípio até o fim (Ec. 3.11).
Deus, como diz o profeta Isaias, é um Deus que verdadeiramente se oculta (Is. 45.15), mas que, ao mesmo tempo, se decide por revelar-se. A revelação é um ato gracioso de Deus, haja vista que, por causa de nossos pecados, seríamos incapazes de ter algum conhecimento de Deus. Mesmo assim, Ele, sendo um Deus que fala, tomou uma das decisões mais radicais que se possa imaginar. Ele mesmo, a Palavra, tornou-se carne e resolveu habitar no meio dos homens. João diz: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo. 1.14). Em Jesus temos a revelação maior de Deus. Nele, o falar de Deus – dabar em hebraico que significa também ação – pôs-se ao lado dos homens e num gesto amoroso e gracioso, resolveu morrer em lugar dos pecadores, revelando, assim, a mensagem glorioso do evangelho.
É a partir desse acontecimento que podemos, agora, ter acesso à revelação de Deus. É através de Cristo que podemos nos aproximar da Bíblia e, através daquelas palavras, tem um encontro pessoal com o Deus que se revela por meio delas. A Bíblia, nesse contexto, deixa de ser apenas um livro de história, geografia ou literatura e passa a ser aquilo que Deus propôs que ela fosse: “Escritura divinamente soprada por Deus” (II Tm. 3.16). Como tal, essa Escritura não pode ser vista como um livro qualquer, ela, como bem diz o apóstolo, ao ser soprada pelo Espírito de Deus, torna-se útil, não para tirarmos as nossas dúvidas cosmológicas, mas para alcançarmos a salvação em Cristo, nesse contexto, é que ela é “e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; Para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra” (v. 17). Assim é a Palavra de Deus, não posso jamais me assenhorear sobre ela, pois como revelação de Deus, o qual é Deus da Palavra, “é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração” (Hb. 4.12). Esse é o motivo pelo qual, quando lemos a Bíblia, buscando a Palavra de Deus, não podemos assumir outra postura, senão a de humildade, e, como Samuel, orar: “fala, porque o teu servo ouve.” (I Sm. 3.10).
Como Samuel, podemos ser tentados a pensar que o homem fala quando, na verdade, é Deus que fala através dele. A voz de Deus pode muito bem ser confundida com simples palavras humanas, foi como agiu Samuel ao confundir a Palavra de Deus com a de Eli. A Bíblia, por conseguinte, não é um grande livro porque tenha um nível literário que se sobressaia aos grandes escritores. Muito menos porque traga revelações científicas que jamais foram sonhadas pela ciência moderna. Não, a Bíblia, enquanto Palavra de Deus, é útil e eficaz porque testemunha da salvação, mas acima de qualquer coisa, porque trata de um mundo admirável que se acostumou a viver com base nos ditames do materialismo. Somos surpreendidos pela Palavra quando encontramos, naquele livro, a voz do evangelho de Cristo, que fala dEle e nos aponta para Ele.
Buscando Cristo, na Bíblia, podemos testemunhar, com Pedro, que essa Palavra “nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (II Pe. 1.21). Aprendamos, portanto, a ler a Bíblia com esse espírito de submissão, querendo ouvir a voz daquele que fala por meio dos homens, que, uma vez movidos pelo Espírito Santo, testemunharam daquEle que é a Palavra para sempre. Eles tinham um tesouro em vasos de barro, mas, mesmo assim, quando lemos a Escritura, debaixo do sopro do mesmo Espírito que soprou sobre eles, podemos ser impactados pela Palavra do Evangelho de Deus, que trás luz e vida aos corações desalentados. Ao Deus que graciosamente optou por falar aos homens, seja a honra e glória para todo o sempre.

4 de mar de 2006

Vale a pena ser cristão

O cristianismo, ao longo de sua história, tem enfrentado ataques de todas as trincheiras. Nesses últimos tempos, tem sido alvo de deturpações dentro do seu próprio arraial. A verdadeira espiritualidade tem sido confundida com a prosperidade material. O ter tem sido posto em relevo em detrimento do ser. Apesar de tudo isso, elenco, a seguir, algumas das razões pelas quais considero continuar valendo a pena acreditar no cristianismo.
Ainda como nos velhos tempos, diversas pessoas, em diferentes partes do mundo, experimentam o milagre do novo nascimento. Apesar da hipocrisia de muitos, vidas ainda estão sendo transformadas pelo poder de Deus. Essas pessoas, da mesma forma que o apóstolo Paulo, estão tendo um encontro profundo e pessoal com Jesus Cristo, encontro este que tem resultado em uma busca constante pela santificação e por viver em novidade de vida.
As palavras de Cristo e o testemunho da Bíblia Sagrada continuam tão atuais como o jornal de hoje. O evangelho de Jesus não é apenas bom, ele é verdadeiro. Sua mensagem é singular e verdadeira porque Ele é o Verbo que se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade. Enquanto Deus encarnado, ele se identifica, como nenhum outro, com as necessidades reais da existência humana. Nele, as Escrituras do Antigo Testamento se cumprem. Somente por causa dele podemos nos aproximar de Deus chamando-o de “meu Pai”.
O sacrifício vicário de Jesus na cruz do calvário continua sendo a razão do perdão dos nossos pecados. Cristo experimentou a vergonha da cruz por causa das nossas transgressões. Na cruz, Ele revelou o caráter amoroso de Deus. Ali, Deus manifestou clara e publicamente a sua justiça e amor para conosco. Mais do que isso, Deus, em Jesus, experimentou a realidade da dor. Assim, em um mundo de tanto sofrimento, cremos em um Deus que sabe o que é a dor.
O pecado, conforme exposto na Bíblia, é uma realidade radical. Em uma época em que os livros de auto-ajuda estão na moda, inclusive entre os cristãos, proclamando os lados positivos do ser humano, o evangelho ressalta a natureza pecaminosa da humanidade, pondo em destaque a sua depravação. Como o próprio Jesus afirmou, o homem é mal. O seu coração não regenerado está repleto de más intenções. Não sei porque alguns tentam negar o pecado se ele está presente nos jornais de todos os locais e todos os dias. A escolha da democracia como forma de governo pressupõe a existência da natureza corrupta dos seres humanos.
Mesmo assim, nem tudo está perdido. O mais interessante no cristianismo é que apesar dos nossos pecados, Deus, paradoxalmente, nos ama e nos proporciona a liberdade em Jesus Cristo. Ele nos amou de maneira tal que providenciou um escape. Quando cremos no sacrifício de Jesus na cruz do calvário, somos salvos dos nossos pecados. A liberdade que Cristo dá nos conduz a viver sob o jugo do amor, a Deus primeiramente, e ao próximo como a nós mesmos. Vivendo nesse amor, podemos ter a esperança de um futuro glorioso na eternidade.
Essas são algumas principais, entre muitas outras razões, pelas quais vale a pena crer no cristianismo. Em meio a uma época em que as doutrinas verdadeiramente cristãs sofrem ameaças de todos os lados pelo secularismo, é valido reafirmar as nossas crenças, pondo como base o evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Certa vez, um missionário cristão chegou a um país e foi indagado por certo homem daquele local a razão de sua viagem missionária. Ele questionava a existência de tanta hipocrisia e injustiça em países ditos cristãos. O missionário sabiamente respondeu que estava ali não para falar do seu país, nem dos seus costumes, mas exclusivamente de Cristo e desafiou aquele homem a encontrar algo que maculasse a integridade de Cristo. O homem baixou a cabeça e nada respondeu.
A fé cristã genuína é muito mais do que um conjunto de regras a serem seguidas. É um relacionamento profundo e contínuo com uma pessoa: Jesus Cristo. Por isso, vale a pena não só crer no cristianismo, mas, principalmente, ser cristão.