31 de mar de 2014

Não me envergonho do Evangelho, mas...

Nesses últimos dias tenho acompanhado uma tendência nas redes sociais, a de um evangélico desafiar outro para testemunhar de Cristo, mais precisamente para dizer que não se envergonha do evangelho. Não me lembro de ter recebido tal desafio por alguém para fazê-lo. Caso já o tenha sido, ou talvez, antes que aconteça, decidi expressar meu posicionamento a respeito de Cristo, do evangelho e dos evangélicos. A princípio quero ressaltar que considero a iniciativa interessante, oportuniza a pregação do evangelho de Cristo, e como disse Paulo aos Filipenses, importa que o evangelho seja pregado.
Não me envergonho do evangelho, pois essa é uma boa nova, notícia alvissareira de graça, que conduz à vida o pecador mais relutante. Mas me envergonho de muitos líderes transformarem o evangelho em um fardo pesado, que nem eles mesmos o carregam, mas os colocam sobre outros para oprimi-los. Não me envergonho do evangelho, pois se trata de uma mensagem de graça, que não impõe sobre o pecador qualquer mérito para a salvação. Envergonha-me ver alguns pregadores, loteando o céu para que as pessoas cumpram determinados preceitos para a ele adentrarem. O evangelho de Jesus Cristo é para todo aquele que crê, não depende do que alguém faça ou deixe de fazer.
Não me envergonho do evangelho, pois Jesus foi revolucionário em sua mensagem, principalmente no que tange às riquezas deste mundo. Envergonha-me ver tantos apóstolos, bispos e pastores obcecados pelo dinheiro, dobrados diante de Mamom, investindo na raiz de todos os males. Não me envergonho do evangelho, pois ele nitidamente se preocupa com os mais pobres e necessitados. Envergonho-me daqueles que querem fazer fortuna através do ofício eclesiástico. Esses não têm qualquer preocupação com os mais pobres da igreja, não se sensibilizam com aqueles que estão passando por privações. O cristianismo, desde o princípio, foi comunitário, demonstrou interesse por aqueles que nada tinham, voltava-se para os desamparados.
Não me envergonho do evangelho, pois seu maior poder está no amor, na entrega incondicional pelo outro, independentemente da condição social. Mas me envergonho de ver tantos líderes viciados no poder terreno, que vendem os irmãos a cada período eleitoral, que tiram vantagens políticas em detrimento da miséria social. Não me envergonho do evangelho, pois este valoriza os tesouros celestiais que a traça não corrói. Envergonho-me ao ver os descalabros que são feitos para beneficiar as panelinhas, se utilizando inclusive do dinheiro público, tendo a audácia de fazer oração de gratidão pela propina recebida, escandalizando a verdade sagrada.
Como Paulo, não me envergonho do evangelho, debruço-me sobre essa mensagem todos os dias. Estou ciente que essa é mais que uma ideologia, e que não está atrelada a posicionamentos políticos, sejam eles de direita ou de esquerda. Não me envergonho do evangelho por causa do seu caráter profético, e justamente por estar acima da história, considerando que este procede daquele que veio da eternidade, por isso não pode ser enclausurado em qualquer sistema humano. Não me envergonho do evangelho, mas me envergonho de muitos que se dizem evangélicos, que não abrem as páginas das Escrituras, principalmente dos evangelhos, para saber o que neles está escrito.
Não me envergonho do evangelho, mas me envergonho de muitos evangélicos, que não sabem o que estão dizendo, pois não consideram o evangelho ao qual dizem pertencer. Envergonha-me constatar, nos pronunciamentos midiáticos, que muitos que se identificam como evangélicos, não têm compromisso com a Palavra de Deus. Envergonho-me da falta de disposição para o sacrifício dos evangélicos, muitos deles sequer sabem que Cristo deixou uma cruz a ser carregada. Por isso, me envergonho quando, vez por outra, aparece alguém na mídia, propalando ter se tornando evangélico, com uma mensagem de felicidade fácil, geralmente tirando proveito dos mais simples.
Antes que o desafio chegue até mim, através das redes sociais, quero me adiantar, e declarar, com veemência, e com certa tristeza, que não me envergonho do evangelho, mas me envergonho de muitos que se dizem evangélicos. 

18 de mar de 2014

Que tipo de teólogo você quer ser?

Houve um tempo em que o estudo teológico não era valorizado, principalmente no contexto pentecostal. Felizmente esse quadro tem se alterado nesses últimos anos, temos observado um interesse crescente pelo estudo a respeito das coisas de Deus. Mas há muitos excessos em relação ao significado do fazer teológico. Em alguns casos, os disparates acabam por desabonar o exercício dessa prática. Há aqueles que se ufanam por causa da formação, outros que se ensoberbecem pelo conhecimento que adquiriram através do estudo doutrinário. Ciente dessa realidade, pretendemos, neste texto, tecer algumas considerações a respeito da teológica, mais especificamente sobre o papel do teólogo na igreja cristã.
Destacamos, a princípio, que todos aqueles que são cristãos, queiram ou não, são teólogos. O termo teologia quer dizer “discurso a respeito de Deus”. Sendo assim, qualquer pessoa que conversa sobre Deus está fazendo teologia, seja em casa, na rua, no trabalho, e até na igreja. Em virtude do estudo acadêmico, há aqueles que defendem que a teologia é uma área de conhecimento específica para aqueles que fazem cursos. Evidentemente existem bons e maus teólogos, ou seja, aqueles que se aproximam de Deus em espírito e em verdade (Jo. 4.23) e aqueles que se baseiam no achismo, nas suas impressões sobre o que pensa ser verdadeiro ou falso sobre Deus. Essa última possibilidade é perigosa porque pode resultar em uma visão deturpada sobre Deus, desviando-se para um deus, com “d” minúsculo (Dt. 11.16).
A prática teológica deve nos conduzir à verdade, mas principalmente à alegria de amar a Deus. O conhecimento teológico não pode apenas ser racional, precisa também ser pessoal, na direção ao Deus que se revela. Esse ato comunicativo de Deus deve ser celebrado pelo teólogo, por isso deve permanecer sempre deslumbrado pela graça de conhecer. A teologia é um ramo do conhecimento, por sua própria natureza, prazeroso e respaldado pelo amor Àquele que se fez conhecido (Sl. 147.11). Fazer teologia, nessa perspectiva, é uma peregrinação jubilosa. É maravilhoso saber que Deus se deu a conhecer em Jesus Cristo, e pelo Espírito Santo (Jo. 3.34,36; Rm. 8.11; Fp. 3.3). Cristo é ápice da revelação de Deus (Hb. 1.1,2), Aquele que conhece plenamente o Pai, e que nos mostra com graça Seu amor pelos pecadores (Mt. 11.27).
Jesus nos ensinou que o pensar sobre Deus deve estar voltado à vida, por isso o teólogo deve saber que está envolvido em uma ciência prática, e se distanciar do pensamento meramente especulativo. Há alguns teólogos que não querem compromisso ético com a Palavra, por esse motivo preferem a teologia especulativa. Esse é um grande equívoco, as passagens sábias de Provérbios nos lembram que a verdadeira sabedoria repousa na obediência, alicerçada no temor ao Senhor (Pv.1.7;  4.23). O teólogo sadio é aquele que cultiva não apenas o raciocínio, mas também a espiritualidade na relação entre verdade e amor (Gl. 5.22-26). Ele é alguém sempre tocado pela Palavra que se fez carne, que submete inclusive a razão à fé, ao testemunho dos profetas e apóstolos (Lc. 24.25-27; I Co. 3.10-16; Ef. 2.20).
Isso somente poderá acontecer se o teólogo conciliar estudo bíblico com oração, investindo em seu relacionamento pessoal com Deus (Jo. 15.1-17; I Ts. 5.17). A oração é implicada no fazer teológico, assim o estudioso da Palavra demonstra sua limitação, sobretudo, na dependência ao Espírito que perscruta as coisas espirituais (I Co. 2.9-13). Por estar consciente de que foi alcançado pela revelação, o teólogo não pode pender para a arrogância, muito pelo contrário, precisa ser um exemplo de humildade (Mt. 18.1-4; Tg. 4.6; I Pe. 5.5). Tal humildade deve ser concretizada nos relacionamentos com o próximo, nunca se achando melhor ou maior do que os outros (Fp. 2.1-5). A humildade do teólogo é um testemunho de fé para aqueles que o cercam, ao demonstrar para os outros que estamos todos debaixo de senhorio de Cristo.
O teólogo também deve estar comprometido com a mudança da realidade na qual está inserido. Não há compatibilidade bíblica entre teologia e opulência, pois a relação é entre teologia, sofrimento e justiça (Tg. 1.17). Ser teólogo significa se envolver na discussão sobre práticas sociais injustas, colocando sua voz a serviço dos necessitados, lembrando também que Cristo se identificou com os pobres (II Co. 8.9). Cabe a ele também a responsabilidade de trazer uma palavra de alento e esperança àqueles que passam por sofrimento (Jo. 17.15-19; I Co. 1.25-31; Fp. 2.15). A teologia não pode ser uma ciência a ser exercida apenas dentro das quatro paredes do templo, ela precisa ir às praças, chegar até os palácios, quando necessário denunciado as injustiças (Is. 1.18; 58.3-8). O teólogo não é alguém separado da realidade social, não está em uma torre de marfim, distante dos problemas da sociedade (Am. 2.7; 5.7).
O teólogo também não pode se desvincular da igreja, ele faz parte do corpo universal de Cristo, por isso precisa aprender a dialogar com as doutrinas históricas. As Escrituras devem sempre fundamentar o pensamento teológico (Mt. 15.3-9), considerando também o que a tradição, não o tradicionalismo, tem a dizer. Tradição é o exame do que a igreja acreditou ao longo da história em relação a determinadas doutrinas bíblicas. O tradicionalismo é a crença de que a verdade está na própria doutrina, colocando-o em posição de superioridade, acima da Bíblia. Uma igreja verdadeira não teme os teólogos sérios, aqueles que exercitam a verdade em amor. Isso porque os teólogos auxiliam a igreja para que essa continue no caminho, não se afaste para a esquerda, muito menos para a direita.
Isso é possível porque o teólogo é alguém que se pauta pelas Escrituras, que se regozija na Palavra de Deus (Sl. 119.162). A fuga da revelação bíblica sempre foi uma tentação para os teólogos ao longo da história do cristianismo. Mas a saúde da igreja foi resguardada na medida em que Deus levantou homens e mulheres comprometidos com a revelação. O teólogo é alguém que se aproxima das Escrituras com seriedade, que não subverte os textos a seu bel-prazer, que respeita o que o Autor quis dizer. Por essa razão o teólogo se volta para a convicção de que Deus é Alguém que fala (Hb. 1.1-3; Jo. 1.1). O tratamento do teólogo, no que tange às Escrituras, é de submissão, pois ao se aproximar delas, sabe-se estar diante de um texto proveniente do Espírito de Deus (II Tm. 3.16).
Mais que isso, o texto bíblico, diante do qual o teólogo se encontra, o interpela a mudança de vida. Tendo em vista que a palavra de Deus é proveitosa, para ensinar, redarguir, corrigir e treinar para justiça, para que o homem e a mulher de Deus sejam equipados para toda boa obra (II Tm. 3.16,17). O teólogo que serve a Deus não quer apenas refletir, não se satisfaz com a mera especulação, antes se lança diante do desafio de mudar a si mesmo, fugindo do pecado em busca da santificação (Sl. 119.9-11). A vida do teólogo cristão é pautada pela lâmpada que alumia seus caminhos (Sl. 119.105). A menos que esteja redimido diante da cruz, em uma disposição de subserviência, sobretudo de reverência a Deus, o teólogo não passará de um pensador, às vezes, fugindo  dAquele diante do qual todo joelho deve se dobrar (Fp. 2.10,11). 

24 de dez de 2013

Plena identidade em Deus

A identidade humana é uma dispersão, não somos um como defendem alguns pensadores, mas uma multiplicidade de eus. Há sociólogos que atribuem essa condição à pós-modernidade, a uma construção de influências, especialmente no contexto da globalização. Mas a raiz da fragmentação identitária não está somente na cultura, somos seres caídos, e para utilizar uma expressão teológica, pecadores. Se preferirmos uma terminologia filosófica, podemos assumir que somos seres incompletos ou inacabados.
Não somos quem gostaríamos de ser, ou somos aquilo que somos, e ao mesmo tempo, aquilo que não queríamos ser. Paulo, em sua Epístola aos Romanos, expressou essa condição humana, ao explicitar que havia, dentro dele, vontades em confronto. Para ele, o bem que queria fazer não conseguir, e justamente o mal que aborrecia era o que fazia. A psicologia moderna, em sua expressão freudiana, expande essa percepção paulina. O ser humano é constituído por interesses distintos, regidos pelo desejo que o impele para agir para além da razão.
De acordo com a revelação bíblica, a existência humana está alicerçada nesse embate, explicitado por Paulo em sua Epístola aos Gálatas como uma batalha entre a carne e o espírito. Em oposição ao pensamento do bom salvagem, os escritores sacros reconhecem que o homem é mau, o próprio Jesus atestou essa verdade. Paradoxalmente, ele não é apenas mau, existe algo de bom em cada um deles, mas que nem sempre se sobressai por causa do desejo que se sobrepõe. É essa fragmentação que constitui a identidade humana, uma série de vontades, que são ampliadas pelas influencias culturais.
Evidentemente assumimos alguns papeis sociais, dentro de um repertório de possibilidades. Nossas escolhas costumam recair dentro desse leque, geralmente estabelecido pelos posicionamentos sociais. A força institucional é inegável na consolidação de tais papeis, é a partir dela, mais precisamente, dentro dos seus parâmetros, que nos identificamos. Nesta sociedade, consumista e individualista, temos dificuldade de exercitar a generosidade e a coletividade. Queremos fazer aquilo que nos realiza, para o qual fomos criados, mas não conseguimos, pois somos impelidos, pelo meio, a usar as máscaras que o script determina.
Não que essa seja uma situação determinada, há possiblidade de agenciamento, ou seja, de mudarmos a realidade. Mas essa não é uma tarefa fácil, na maioria das vezes é bastante incômoda. Nossas limitações nos lançam de um lado para o outro, às vezes em conflito interno, estilhaçados pelas forças antagônicas, e não poucas vezes tentado nos reconstruir. Enquanto estivemos nessa condição, não seremos capazes de ser realmente quem gostaríamos de ser. É no contato com Aquele a quem chamamos de Deus que podemos ser quem realmente deveríamos.
A identidade do ser humano, ainda que não queiramos reconhecer, se encontra nEle, nAquele que é a expressão maior do amor de Deus. Jesus Cristo, o homem-perfeito, é a manifestação concreta da identidade plena. O desafio de todos os homens e mulheres, em todos os tempos, é o de reconstituir-se nEle. Para tanto precisamos abandonar nossas prerrogativas, ter coragem para abandonar as imposições sociais, nos voltamos para a expressão sublime da sua personalidade.
Somente em Cristo, através da atuação do Seu Espírito em nós, poderemos ser realmente quem deveríamos. Paulo admite que essa é uma posição de liberdade, que se inicia no Espírito, e que precisa ser cultivada no tempo presente, mas que será completada apenas na eternidade. 

23 de dez de 2013

Pode o cristão celebrar o Natal?

Existem vários tratados teológicos que criticam a comemoração natalina. Aqueles que assim se posicionam apresentam fundamentos bíblicos e históricos bastante convincentes. Os fatos parecem apontar que Jesus dificilmente teria nascido em dezembro. A observância dessa data, ao que tudo indica, sofreu influências de práticas pagãs. A celebração do nascimento de divindades era um costume adotado pelas antigas religiões. Ao que tudo indica, a expansão do cristianismo, em sincretismo com tais crenças, favoreceu a celebração natalina.
Por causa disso, não poucos teólogos questionam esse tipo de comemoração nos arraiais cristãos. Algumas igrejas, mesmo evangélicas, são rotuladas pejorativamente de adeptas de Constantino, uma alusão direta ao imperador responsável por cristianizar o império. Por causa disso, muitos evangélicos sentem-se incomodados com essas críticas, e por causa disso, há igrejas que estão abandonando o culto natalino. As imposições teológicas, em tais contextos, têm prevalecido, os argumentos são tão evidentes que não há como fugir às constatações dos teólogos.
Ter a coragem de defender a comemoração do Natal, diante de tais argumentos, parece ser uma tarefa insana, mas é o que nos propomos a fazer nas linhas a seguir. Devemos celebrar o Natal por uma razão bastante simples, mas que se justifica por si mesma, Cristo é, ou pelo menos deveria ser, a Pessoa central do Natal. Os cristãos devem se posicionar contra o consumismo, comum no período natalino, e que transforma essa época em uma mera aquisição de bens. A ênfase em outras figuras, como a do Papai Noel, também deve ser questionada, em prol de Cristo, o menino que nasceu em Belém.
Quando celebramos o Natal adotamos o mesmo princípio de Paulo quando entregou o seu famoso sermão ao Deus Desconhecido em Atenas. O Apóstolo dos gentios sabia que aquele não era o deus verdadeiro, mas se aproveitou da oportunidade para expor os fundamentos da fé em Cristo, enfatizando sua ressurreição. No Natal podemos fazer o mesmo, essa é uma oportunidade singular, na qual as pessoas estão mais sensíveis à fé, para mostrar o amor de Deus em Cristo, dando-nos o Seu presente inefável. Podemos lembrar, durante as festas natalinas, que o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade.
O Natal é de Cristo, somente Ele é digno de ser adorado não apenas nesse período, mas em todo tempo. Ainda que Ele não tenha nascido em dezembro podemos celebrar nesta data, considerando que não é incomum alguém fazer aniversário em um dia e comemorar em outro. Ele pode muito bem não ter vindo a terra em dezembro, mas não importa, o mais importante é que Ele veio. Há quem defenda que devemos lembrar apenas sua morte, não seu nascimento, afirmando, com propriedade, que foi aquele evento, e não este, que recebeu atenção de Jesus. De fato, e já celebramos a morte de Cristo por ocasião da Ceia, e poderíamos fazer o mesmo no período da Páscoa, adotando o mesmo princípio em relação ao Natal.
O mais importante, conforme já ressaltamos anteriormente, é lembrar que o Deus se fez gente. Em Cristo, fomos visitados por Deus, Ele tomou a graciosa decisão de vir morar conosco, e sacrificar-se pelos nossos pecados. Em 1969, quando a nave Apolo 11 posou solo lunar, os jornalistas disseram que aquele havia sido o maior evento de todos os tempos. O evangelista americano Billy Graham interviu para reconsiderar tal afirmação. Ele rebateu dizendo que o maior acontecimento de todos os tempos não tinha sido o homem ter colocado os pés na lua, mas Deus ter posto os pés na terra, em Jesus Cristo. A habitação de Deus entre os homens, trazendo alegria, boas novas de paz, continua sendo a maior motivação para a celebração do Natal.
Cristo nasceu, naquela noite escura em Belém, não havia lugar para Ele nas estalagens da cidade. A criança, juntamente com seus pais José e Maria, encontrou guarida em uma estrabaria. Esse é um dado histórico, detalhadamente relatado por Lucas em seu evangelho, registrado com beleza por Mateus, reconhecendo que Jesus é o Emmanuel, Deus conosco. Mas a grande verdade é que Cristo nasce, existencialmente, a qualquer momento, na vida daqueles que O recebem como Senhor e Salvador das suas vidas. Consoante ao exposto, temos alguns motivos para não celebrar o Natal, mas temos o dobro de razões para fazê-lo. A presença de Deus, em Cristo, é a maior delas, e suficiente para nos dobrarmos diante dAquele que vive para todo sempre. 

11 de dez de 2013

Apologia cristã em As Crônicas de Nárnia

Um livro que nos conduz para além da realidade tangível, que nos lança no mundo da imaginação repleto de criatividade, assim pode ser descrita a coleção de livros escrita pelo autor irlandês C. S. Lewis. Jack, como também era conhecido, trilhou um longo caminho pelo ateísmo, até que, sob a influência de J. R. R. Tolkien, autor de O Hobbit e de O Senhor dos Anéis, acabou se voltando ao cristianismo. Esse convertido relutante precisou ser batizado pela literatura imaginária para finalmente entregar-se aos ensinamentos dos quais havia se distanciado na juventude. Depois do retorno à peregrinação cristã dedicou-se com afinco à defesa da fé, escrevendo livros e tratados com teor apologético.
Esses livros teológicos fundamentam as discussões de muitos apologistas cristãos do nosso tempo. Lewis foi sempre um defensor de que o cristianismo é como a luz do sol, não apenas porque as pessoas podem vê-lo, mas também porque podem ver tudo mais a partir dele. Por esse motivo, percebia a realidade sempre a partir dessas lentes, fazendo o mesmo em relação à sua produção literária. Professor conceituado de literatura renascentista e medieval em Cambridge e Oxford, Lewis orquestrou seu conhecimento para criar um mundo imaginário, cheio de fantasia, resgatando a beleza dos contos de fadas.
Muito embora seus livros de fantasia tenham um forte apela infanto-juvenil, adultos de todos os tempos são tocados pela criatividade dos seus textos. Ele lembrou certa feita que, em algum tempo, as pessoas despertariam para o valor dos contos de fadas. As crônicas de Nárnia, a obra mais conhecida de Lewis, faz apologia à fé cristã de uma maneira que alcança sutilmente todos aqueles que com ela fazem contato. Do primeiro ao último livro da série, somos tomados pela esperança, isso porque o inverno da vida se faz verão a cada vez que Aslam se faz presente. O Leão de Nárnia é uma alusão direta à pessoa de Cristo, aquele que morre e retorna a vida, sendo Senhor amoroso daquele mundo.
A figura de Cristo construída ao longo da obra é feita com tal maestria que é admirada até mesmo pelos eruditos da alegoria. Aslam é o leão perdoador, que se sacrifica pelos outros, que não pode ser domado, que se relava ao mesmo tempo em que se oculta. Em alguns livros da série, como em O Príncipe Caspian e A Cadeira de Prata, Aslam é esquecido pelos habitantes de Nárnia. Em A Última Batalha os habitantes de Nárnia são enganados por aqueles que fazem se passar por Ele, até que são finalmente desmascarados. Como Cristo, Aslam é adorado, e reconhecido como o Senhor. A descrição de Lewis fez intertexto direto com a narrativa dos evangelhos.
Nas entrelinhas da obra encontramos uma defesa cristã que apela à imaginação, que nos liberta das cadeias materialistas que querem nos aprisionar. Em Nárnia nos deparamos com um mundo que nos torna quem de fato somos, e que nos aproxima dAquele a quem nossa alma aspira. Mais interessante, como também destacou Tolkien, aqueles que passam por essa experiência, não são meros escapistas. Muito pelo contrário, o contato com Nárnia aumenta nossa responsabilidade enquanto aqui estivermos. Por conhecer um mundo totalmente diferente, no qual Aslam é o Senhor, que rege com justiça e amor, devemos, nesta era, viver a partir daquele reino, e sempre que possível, sabotar o império dos que a ele se opõe. 

28 de nov de 2013

Igrejas que (des)consideram a Biblia


A Bíblia é a Palavra de Deus, um livro sem igual, uma manancial de vida. A igreja cristã, desde os seus primórdios, se voltou para sua mensagem como verdade expressa de Deus. E assim deve permanecer, nenhuma igreja poderia se dizer cristã a menos que levasse a sério a leitura das Escrituras. Não me refiro à utilização do texto como pretexto, para ser mais específico, da mera condução da Bíblia para o culto. Ou mesmo, a pincelagem de algumas passagens a fim de extrair o que é de interesse de alguém ou de determinado grupo.
Uma igreja que considera a Bíblia, toma-a em sua completude, reconhece que ela é a infalível Palavra de Deus, não apenas em partes, mas da primeira a última página. É isso que Paulo quer dizer ao destacar que toda Escritura é soprada por Deus, e mais importante, proveitosa para a edificação da igreja. Mas isso não quer dizer que a Bíblia tenha igual valor em suas partes. Existem textos que são sombras, que não podem ser interpretados, a menos que tenhamos a luz do evangelho. Essa luz é o próprio Cristo, o intérprete por excelência do texto. Ele deu exemplo da sua maestria hermenêutica após a ressurreição.
Na verdade, Jesus é a chave-interpretativa das Escrituras, ninguém pode ter uma apropriada compreensão do texto, seja do Antigo ou do Novo Testamento, sem recorrer ao que Cristo tem a dizer a respeito. Esse foi o problema dos religiosos do tempo de Jesus, eles tinham suas regras interpretativas, seus pressupostos doutrinários, que os distanciavam da revelação. Uma igreja séria se dedica, com afinco, ao estudo da Bíblia, não apenas em tópicos, mas principalmente, em ouvi-la de forma expositiva. A escola hermenêutica de Satanás adora citar textos bíblicos descontextualizados, sem respaldo cristocêntrico, a fim de conduzir ao engano.
Isso quer dizer que a Bíblia pode ser usada para distanciar as pessoas para longe de Deus. Existem várias igrejas que estão se apropriando indevidamente de passagens bíblicas para fundamentarem o que Cristo não defende. Aspectos gramaticais e contextuais são desconsiderados, pior ainda, a voz de Deus, em Cristo, não é ouvida. Por esse motivo, as páginas da Bíblia são transformadas em leis e regras, geralmente pesarosas. É por isso que em alguns arraiais ditos cristãos a Bíblia não tem a menor graça. Isso porque ao amor de Deus em Cristo, demonstrado na cruz do calvário, motivação para a santificação, é desconsiderado.
Existem muitas igrejas que não deveriam ser denominadas de evangélicas. Por uma razão muito simples, elas simplesmente não se voltam para o evangelho de Cristo. A autoridade maior está fundamentada em seus líderes. Eles determinam, a seu bel-prazer, como devem se conduzir seus adeptos. Está na hora de resgatarmos o ensino expositivo da Bíblia em nossas igrejas. E também ter a coragem de assumir que as igrejas que desconsideram a Bíblia, não devem, sob qualquer hipótese, serem reconhecidas como cristãs. Toda igreja se levanta ou fica de pé dependendo do modo como trata as Escrituras.
Na verdade, é pela forma que uma igreja se submete à Palavra de Deus que identificamos seu caráter evangélico. Uma igreja que não valoriza a Bíblia, em que essa é apenas um pretexto para interesses individuais. Em algumas delas os membros a conduzem, mas não a leem, e se o fazem, é debaixo dos óculos de um grupo, que mesmo desqualificado, determina como essa deve ser interpretada. A Bíblia pode ser interpretada por qualquer pessoa, contanto que essa escute o que a igreja tem a dizer, que esteja em consonância com Cristo, mas, sobretudo, que considere o que o texto quer realmente dizer, atentando tanto para os aspectos linguísticos quanto contextuais.
Que as igrejas, algumas delas ditas evangélicas, se voltem mais para a Palavra de Deus, que estudem a Bíblia, que seus líderes se dediquem à ministração expositiva, que as a interpretação do texto seja feita com seriedade. E mais importante ainda, que reconheçamos que a Bíblia não é apenas um livro de curiosidades, ou mesmo de perguntas difíceis, mas uma palavra fiel e verdadeira, útil e proveitosa para ensinar, para conduzir à santificação. Assim fazendo, ela, como espada poderosa que é, lerá nossas intenções, transformará as nossas vidas, e no Espírito, trabalhará em nosso caráter, até que sejamos encontrados no padrão de Cristo. 

4 de out de 2013

O triunfo da graça em Os Miseráveis

Os miseráveis está na pauta, o livro escrito por Victor Hugo foi mais uma vez levado às telas. Desta feita no gênero musical, arrebatando corações e muitos prêmios. Tive a oportunidade de ver o filme, e de também me emocionar. Mas resolvi retornar ao livro, que já havia lido tempos atrás. Relutei antes de fazê-lo, pois mesmo sendo dado à leitura, não foi fácil se debruçar sobre mais de 1.000 páginas. Segui sem pressa, deixando o tempo passar, lendo pequenas porções ao longo deste ano. Neste dia, após uma paciente jornada, concluo a leitura do último capítulo, sinto-me instigado a socializar algumas impressões dessa obra clássica da literatura universal.
Quando peguei o tomo, decidi fazer uma leitura teológica do texto que resultaram em uma série de anotações às margens das páginas, muitas delas estão sublinhadas. Parece-me inegável que o autor foi extremamente influenciado pelos relatos bíblicos. O tema central da obra é a relação de confronto entre lei e graça, assunto discutido por muitos pensadores. As Epístolas de Paulo estão repletas de orientações cristãs quanto à função da lei, para apontar o pecado, e da graça, como escape divino para a redenção. Agostinho de Hipona, tocado pela Epístola de Paulo aos Romanos, desenvolveu esse assuntos em seus escritos. O mesmo fez o teólogo católico Erasmo de Roterdã, e os protestantes Lutero e Calvino.
A partir dessa tradição, a lei, nomos no grego, é sempre uma projeção humana, e, de certo modo, uma exigência divina. Paulo, em seus escritos, reconhece a necessidade da lei, mas apenas como meta a ser perseguida, ainda que não seja alcançada. Justamente por causa dessa limitação a graça, charis em grego que carrega o significado de favor imerecido, entra em ação. A graça de Deus é a manifestação do próprio Cristo, nEle se encarna o Favor de Deus, a disposição de aceitar o pecador, independentemente da sua condição moral. Cristo, nos relatos dos Evangelhos, é apresentado como Aquele que se aproxima, e diferentemente dos religiosos da Sua época, abraça as pessoas marginalizadas pelos padrões humanos. Assim como o pai do filho pródigo, Jesus se compadece dos pecadores.
Os Miseráveis dialoga intertextualmente com esses valores cristãos, nem sempre observados pela sociedade, fundamentada no moralismo legalista. Jean Valjean, o prisioneiro condenado a viver debaixo da égide da lei, é alcançado pela graça de um cristão, que levou a graça às últimas consequências. Ao invés de imputar sobre ele o juízo, lhe estende a mão e o agracia com o perdão. Essa atitude desequilibra o infrator ao perceber naquele ato a inversão da lógica humana pela intervenção divina. Javert, o policial que busca colocar Valjean detrás das grades representa a lei, em sua extensão mais cruel, a que não vê pessoas, apenas números e rótulos. As declarações desse homem da lei fazem eco às falas dos fariseus legalistas do tempo de Jesus, que O censuravam por se acercar de pecadores.
Valjean, ao ser tocado pela doutrina graça, decide viver não mais debaixo da lei. Ele olha para Fantini, a prostituta, como alguém que foi colocada naquela situação. Seu pecado não é visto isoladamente, mas dentro de uma teia maior, resultante de outros pecados sociais, dentre eles, a ganância. A morte daquela mulher seria motivo de celebração para alguns, uma a menos entre as párias da sociedade. Não para Jean Valjean, pois não está diante de um objeto, mas de uma pessoa digna de honra. Cosette, a filha de Fantini, simboliza a esperança, a possibilidade para a qual a graça aponta. Ao encontrá-la, perdida no mundo, Valjean, o homem agraciado, age com graça, e não mede esforços para redimir aquela pobre existência.
Os Miseráveis é um grande tratado litero-teológico, uma expressão de que a graça pode vencer. Ao concluir a leitura desse clássico, reflito sobre as atitudes de Jesus, perdoando até mesmo aqueles que O executaram. Volto-me para a possibilidade da redenção humana, concretizada em Jean Valjean, materializada no Evangelho a cada vez que Jesus recebia um pecador. A lei e a graça estão em disputa a todo instante, a primeira sempre mostrando aonde devemos ir, sem nos conduzir ao local desejado. A graça, por outro lado, nos atrai, com ternura, na pessoa de Cristo, para onde nem mesmo imaginávamos. A justiça do cristão excede a dos fariseus, é o escândalo da cruz, do sacrifício para com os que não merecem. Javert não suportou o impacto da graça, lançou-se no abismo, negando-se a assimilar outra possibilidade existencial.
A graça de Deus é maravilhosa, espanta aos que vivem debaixo da lei. Os fariseus não compreenderam, preferiram fechar os olhos. Cristo, a graça de Deus manifestada, é absurda para aqueles que se pautam pela norma. A justiça de Deus é o auto-sacrifício, a entrega incondicional pelo outro. Jean Valjean somos todos nós, que em algum momento da vida nos percebemos pecadores atingidos pela graça. Nada merecemos de Deus, não passamos de meros miseráveis, carentes de aceitação. Quando a graça nos alcança, ficamos estupefatos, a religiosidade se desequilibra. Somente aqueles que vivem a partir da graça podem, tal como Valjean, triunfar em um mundo marcado pelo legalismo.